Pioneiro na TV a cores, Sérgio Reis é um colecionador de memórias

Para encerrar o ciclo de palestras da XX Semana Acadêmica da Comunicação (Seacom), o convidado foi um antigo conhecido de Santa Cruz do Sul, que costumava transmitir corridas de automóvel, as chamadas pick-up racings. Na noite de ontem, antes de todos os estudantes terem a oportunidade de trocar ideias com o senhor de 77 anos de idade, que há quatro semestres é professor, eu, representando a Agência A4, pude conversar com esse griô, como ele mesmo se intitula.
O entrevistado foi o contador de histórias Sérgio Reis, que depois de mais de 60 anos de carreira decidiu compartilhar suas memórias com a juventude, em sala de aula. Dentre os feitos do mestre em Comunicação Social, estão as inaugurações de todas as TV’s do Rio Grande do Sul e a primeira transmissão a cores da TV brasileira. Confira a entrevista:

Agência A4 – Como um dos pioneiros no rádio e na TV, no Brasil, qual a tua avaliação sobre o momento atual de convergência das mídias?
Sérgio Reis – Eu vejo isso como uma realidade que está abrindo novos espaços, ampliando seguimentos. Essa convergência é extremamente importante. Em primeiro lugar, pela inevitabilidade da existência da convergência. Você não pode se dar ao luxo de dizer que não quer assim – é assim. A tecnologia avança por cima da gente e nós temos que nos adaptar e usá-la da melhor forma possível. Essa convergência de mídias é maravilhosa, porque os assuntos atingem a todos os segmentos de mercado. É obrigatório, praticamente, ir. E antes não iria. Iria só para um segmento, muito fechado. Seria um jornalismo especializado, que não é mais o caso, felizmente. Vejo isso com muito bons olhos.

Agência A4 – Como tu te relacionas com internet e redes sociais?
Sérgio Reis – Muito bem. Faz parte da minha vida, é inevitável. Eu tenho 77 anos. A internet existe no Brasil há 20 anos. Eu digo que existe uma geração dos “nativos digitais”. Uma geração que nasceu junto com a digitalização, com o processo de internet, com o processo todo de mídias. Nós, os mais velhos, convivemos com isso e aprendemos a mexer com isso, nos adaptamos, fomos entrando nisso. Eu transito muito bem em todas as mídias, me dou muito bem com elas e elas parece que gostam de mim também. Nós conseguimos sobreviver com muita facilidade. Me entendo muito bem com elas e, se não me entendesse, não poderia ser professor de Comunicação Social, na Univates, nem poderia estar trabalhando, sequer.

Agência A4 – Por que decidiu, após mais de 60 anos de carreira, voltar a estudar e ser professor?
Sérgio Reis – Foi uma decisão pensada. Eu trabalhei 67 anos em rádio e televisão. Comecei com nove anos de idade, fazendo rádio teatro. Ali evoluí, virei locutor de notícias, redator de notícias. Fui fazer televisão, inaugurei as TV’s todas do Rio Grande do Sul, a primeira transmissão de TV a cores quem fez fui eu. Chegou um momento em que eu entendi que aquilo ali bastava. Eu penso que a televisão brasileira é uma televisão jovem e bonita. São dois atributos que eu não tenho. A televisão brasileira não se baliza mais pelo conhecimento e capacidade de criatividade. Eu nunca fui bonito, mas juventude eu tive e compartilhei essa juventude com o rádio e com a televisão, de uma forma extremamente prazerosa. O rádio e a TV me deram muitas coisas: alegrias, satisfações, ego massageado, algumas namoradas – não muitas –, foi uma coisa muito boa. Mas chegou o momento em que eu disse: – não dá mais. E como tudo para, eu entendi que era o momento de parar. E, pensei que eu tinha muito a compartilhar com a juventude que está na academia, pela minha experiência de mercado, por tudo que vivenciei. Eu dou aula e, às vezes, eu conto uma história minha e a turma acende; eles querem saber, são ávidos de saber. Achei que era um momento de buscar um segmento para conviver com os jovens e passar esse conhecimento que eu tenho, que é memória. Eu me considero um griô. Griôs são os velhos negros que vieram da África para o Brasil e que contavam a história africana para as crianças. Eles contavam suas memórias, era a história oral. Eu me considero um griô, porque sou um velho, vivi muito, vivi intensamente esse meu tempo, estou ainda em condições de falar e conversar e expôr essas coisas, e penso que devo passar isso para os jovens. Quando eu decidi isso, eu não tinha um mestrado. Tinha apenas a minha vida profissional. Então decidi fazer um mestrado rápido. Rápido porque o meu tempo é curto, eu tenho menos tempo de vida do que eu já vivi. Então fiz o mestrado em um ano e meio, em Comunicação Social. Fui aprovado, com louvor. E, uma vez aprovado, distribuí currículo por todas as universidades que tem por aqui, porque eu queria ficar no Rio Grande do Sul. E a Univates teve a gentileza de me aceitar e estou dando aulas na Univates. Tem sido uma experiência maravilhosa para mim. Penso que para os alunos não está sendo desagradável, tanto que me convidaram para ser paraninfo esse ano, e eu sou um cristão novo lá, porque tenho quatro semestres dentro da universidade. Enfim, a decisão foi pessoal, numa sensação de ter que passar o que eu tenho, de ter que passar o que eu já vivi para os jovens que ainda estão por aí.

Agência A4 – Sobre o que pesquisastes no mestrado?
Sérgio Reis – A minha pesquisa de mestrado foi sobre as emissoras de televisão no Rio Grande do Sul. Eu inaugurei todas as emissoras do Rio Grande do Sul, menos a Pampa, trabalhei por elas e tive toda uma vivência. Meu trabalho é um pouco de história e muito de memória. Parte dele são informações minhas e tem histórias que eu pesquisei, que eu não lembrava mais. Mais do que isso, foi um trabalho mostrando como era a televisão quando começou aqui, em 1960, no Rio Grande do Sul, e como está essa televisão hoje. Essa televisão que funcionava 16, 18 horas por dia, ao vivo, direto, se transformou numa retransmissora dos grandes centros, passando uma hora e meia por dia de programação. Uma porcaria. Lamentavelmente, nós não temos o veículo televisão com a mesma força que tinha, quando nós começamos. Isso tem que ser dito, as pessoas precisam saber.

Agência A4 – Antes de fazer a primeira transmissão a cores no Brasil, tu passastes uma temporada nos Estados Unidos. Como isso influenciou nesse teu feito?
Sérgio Reis – Eu morei nos Estados Unidos, dois anos, a trabalho da TV Difusora. Fui porque nós tínhamos a ambição de formar uma rede de televisão. Estou falando de 1970, quando a rede era uma coisa incipiente. Portanto, eu fui para os Estados Unidos para comprar programas, para comprar eventos, para ver eventos, para dar sugestões e criar coisas. Foi um trabalho muito profícuo, muito bom. Para mim, foi excelente, eu gostava muito de morar lá. E aí, me chamaram de volta, porque tinha a transmissão de TV a cores. Eu fui chamado para organizar a transmissão, que estava dando uma série de problemas, era um negócio extremamente complexo e delicado (o Brasil inteiro, governos militares). Aí eu vim. A busca das cores para a televisão brasileira foi uma decisão governamental, do Ministério das Comunicações.

Agência A4 – O que o jornalismo brasileiro tem a oferecer, em termos de conhecimento, para o resto do mundo?
Sérgio Reis – Vocês são a geração que vai oferecer algumas coisas. Vocês têm que fazer esse curso de Jornalismo olhando lá pra frente. Não tem que se preocupar em passar na prova agora, passar na prova é barbada. Então, tem que ter uma visão ampla, geral, de enxergar esse processo todo. Eu penso que o Brasil tem muito a oferecer. Para alguns países nem tanto, para outros países, sim. Se nos compararmos com Venezuela, Colômbia, Bolívia, é uma covardia. Nós temos que nos comparar com os Estados Unidos. O Brasil faz um jornalismo muito bom, de muito boa qualidade. O aspecto político do jornalismo brasileiro é outra discussão, uma discussão mais acadêmica.

Agência A4 – Avaliando hoje, depois de quatro décadas, quais foram os erros que levaram a TV Rio à falência? Se pudesse voltar no tempo, o que faria?
Sérgio Reis – Eu digo que sempre que alguma coisa não deu certo, que se fez alguma burrada na vida, a gente costuma dizer: – Mas foi uma experiência muito interessante. Foi uma cagada! Nós ganhávamos em audiência em Porto Alegre. A Difusora batia a Gaúcha e batia a Piratini, que eram os outros dois canais, disparado. As pesquisas eram feitas de três em três meses, pelo IBOPE. E quando nós ganhávamos da Gaúcha, dizíamos que tínhamos ganhado da Globo, porque a Gaúcha era a Globo aqui e nós ganhávamos da Gaúcha, então nós ganhávamos da Globo. E nós fomos para o Rio de Janeiro achando que era uma questão de tempo para nós ganharmos da Globo. Nós subestimamos a concorrência e superestimamos a nossa capacidade. A TV Rio era uma emissora falida, quebrada. Devia para a padaria da esquina, para o posto de gasolina, para a mulher que vendia docinho na porta da TV e devia para o Governo. Nós achamos que iríamos para o Rio parabotar as coisas nos eixos, ajeitar, começar a pagar as contas e em 10, 12 anos, nós teríamos pago as contas e estaríamos ricos, seríamos empresários fantásticos e a Globo que se cuidasse conosco. Acontece que levamos para o Rio de Janeiro a programação que nós tínhamos em Porto Alegre. E o carioca não tem nada a ver com o gaúcho. E o carioca tinha uma programação na Rede Globo, com as novelas. Ele se identificava com aquelas novelas, encontrava seus artistas nas ruas, nos restaurantes, nos bares. Então, a TV Globo era uma estação inserida, inteiramente, no Rio de Janeiro. E nós, os gaúchos, chegamos e demos com os burros n’água. A TV tinha dívidas impagáveis, a programação não agradou e nós, principalmente eu, começamos a mexer na programação para tentar acertar. Mas eu não conseguiria fazer uma novela, eu não tinha dinheiro para fazer uma novela. O custo de uma novela é astronômico. Resumo: eu tinha que pagar contas de um faturamento que eu não recebia. Eu comprei equipamentos e comprei séries filmadas, com carência de dois anos. Venceu a carência e eu não tinha como começar a pagar. Foi prejuízo em cima de prejuízo. A audiência não veio nunca, porque eu errei no projeto de programação. Aí eu saí de lá, voltei para cá, vendi um apartamento para pagar as dívidas da viagem de volta e recomecei a minha vida profissional, literalmente, na TV Gaúcha, que estava virando RBS TV, em 1976. Foi isso, a TV Rio foi uma bela burrada e que serviu para mostrar que nós não éramos tão bons quanto pensávamos e que humildade e canja de galinha morna, não faz mal pra ninguém.

Agência A4 – Em seu livro “O Caminho de Santiago: Uma Peregrinação ao Campo das Estrelas”, tu contas os 30 dias do percurso. Foi uma busca pessoal ou foi pensada para escrever o livro?
Sérgio Reis – Foi uma busca pessoal. Não tinha livro nenhum, não queria fazer livro nenhum, não tinha ideia disso. Eu não sabia direito o que era o caminho, mas vi uma mulher dando uma entrevista na televisão e achei que aquilo era muito legal. Minha mulher entrou no quarto, eu estava vendo televisão embasbacado. Eu disse que estava vendo um negócio de um tal de Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, que tinha que caminhar uns 1000 km e que eu estava a fim de fazer. Ela disse: – Quando você vai? Quinze dias depois eu estava em um avião descendo em Barajas. Foi uma decisão pessoal. Eu estava, na época, com 54 anos, tinha feito praticamente tudo que tinha pra fazer em rádio e televisão, tinha os filhos criados, estavam encaminhados na faculdade. Então, eu fiquei me perguntando o que eu iria fazer, o que eu iria ser. Aí, vi o tal de Caminho de Santiago e fui fazer o Caminho de Santiago. A minha mulher me deu um caderno e um lápis para eu fazer anotações e escrever um livro. Poxa, eu ia caminhar. Eu não sou um atleta, nunca fui. Caminhar, pra mim, era buscar o carro no estacionamento. Nunca fiz um exercício físico. Eu ia caminhar 30, 40 km por dia, ia ficar um bagaço, uma uva passa e ainda ia sentar e escrever, tá louco? Bom, eu voltei com quatro cadernos, que eu comprei lá na Espanha, gastei 3 ou 4 lápis, escrevendo furiosamente, todos os dias. Escrevi um livro que ficou com 400 páginas, depois teve que ser cortado para 250. Eu me recusei a cortar, minha mulher cortou. É um livro que está na décima sexta edição, é um livro que eu amo muito, que eu adoro. Eu releio-o com frequência e eu choro em algumas partes. Ele é absolutamente sincero, tudo que está escrito ali aconteceu exatamente como eu disse. Foi em 1992 que eu fiz o caminho e o livro foi publicado em 1994. Para mim foi uma experiência fantástica. Eu voltei diferente, com uma outra visão de mundo, vendo o relacionamento de outra maneira. Eu renasci, passei a me conhecer.

Agência A4 – E porque compartilhar essa experiência em um livro?
Sérgio Reis – A decisão de fazer o livro foi uma decisão de catarse. Quando eu voltei, eu tinha quatro cadernos. Li aquilo tudo, duas, três vezes e comecei a escrever, porque queria escrever para mim. E aí vi que aquilo dava um livro. Negociei com uma editora, para a qual escrevi o “Making off” também. O livro “O Caminho de Santiago: Uma Peregrinação ao Campo das Estrelas” é o de maior vendagem da editora de 1994 até hoje. Eu fiquei extremamente vaidoso com o livro. Vaidoso no bom sentido, muito contente comigo por ter escrito o livro. E é um livro que eu curto, que faz parte de mim. É o meu livro de cabeceira.

Agência A4 – Qual é o perfil do futuro jornalista?
Sérgio Reis – O mercado não é fácil. Nunca foi. Eu trabalho desde 1947 e nunca foi fácil. Porque o país é um país ruim, de má qualidade, lamentavelmente. O que se pode fazer para se diferenciar é lutar para não serem os mesmos. Participarem desse Curso descobrindo coisas, sabendo coisas, abrindo portas, chegando nas pessoas. É preciso aprender, além de fazer jornalismo e um bom texto, duas coisas: seduzir e cativar. Primeiro, seduz e envolve. Depois, cativa, prende. Envolver as pessoas, tanto as pessoas que abrem portas para vocês quanto as que leem e ouvem vocês. O mercado de trabalho é amplo. Assessoria de imprensa é interessante, órgãos governamentais, grandes empresas. É necessário se apresentar com um currículo criativo, honesto. Basicamente, tem que ser único.

Clique aqui e saiba como foi a palestra “Comunicação: portal do conhecimento”, de Sérgio Reis.

Texto: Heloisa Corrêa

Foto: Lucas Batista

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