Violência em números: a realidade brasileira

Uma das pautas do movimento feminista é a violência contra as mulheres nas diferentes formas que pode se manifestar e afetar a vida delas. Segundo dados do Instituto Maria da Penha, a cada dois segundos uma mulher é vítima de agressão física ou verbal no Brasil. Esse problema é agravado quando relacionado às questões de classe, etnia, sexualidade e identidade sexual. Por isso, as mulheres negras, lésbicas e trans estão ainda mais sujeitas a sofrerem com algum tipo de violência.

Mulheres Negras

Esse grupo sofre com a violência de gênero e com o racismo. Em uma declaração para o Dossiê Violência contra as Mulheres da Agência Patrícia Galvão, a historiadora e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, Sueli Carneiro, explicou que: “Ser mulher negra é ocupar um lugar na sociedade brasileira marcado por múltiplas injunções que se potencializam para sua difícil inserção social.” O Mapa da Violência de 2015 aponta que o número de assassinatos de mulheres negras aumentou 54% em dez anos, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Já a taxa de homicídios de mulheres brancas diminuiu 9,8% nesse mesmo período, caindo de 1.747, em 2003, para 1.576, em 2013.

Crédito: Fernanda Nunes da Silveira

Na esfera educacional, há desigualdade de acesso entre mulheres brancas e negras. Segundo as Estatísticas de Gênero do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 19,9% das brancas de 15 a 17 anos apresentam atraso escolar no ensino médio e 30,7% das pretas ou pardas dessa faixa etária estão nessa situação. Também, 10,4% das mulheres negras ou pardas têm ensino superior completo, enquanto 23,5% das brancas concluíram esse nível de ensino. Isso se reflete nas dificuldades enfrentadas pela mulher negra no mercado de trabalho.

Mulheres Lésbicas

Dados do Dossiê Violência contra as Mulheres da Agência Patrícia Galvão mostram que 92% dos brasileiros reconhecem que existe preconceito contra mulheres lésbicas, porém, apenas 27% se consideram preconceituosos. As violências sofridas por esse grupo vão desde discriminações em forma de agressões verbais até o estupro corretivo. Conforme dados do Relatório de Violência LGBTfóbica 2016, foram registrados 123 casos de violência pelo Disque 100, com um total de 202 violações nesse ano. Destes, 37,6% eram relacionados à discriminação, 15,2% e 14,4% às agressões psicológica e física, respectivamente. Contudo, esses são apenas os casos registrados e que ficam conhecidos pelas pessoas.

O Dossiê sobre Lesbocídio no Brasil de 2014 a 2017 aponta que houve um crescimento de mais de 237% no número de mortes de mulheres lésbicas nesse período. Em 2014, foram registrados 16 casos e, em 2017, 54 mortes. No entanto, no próprio documento, é explicado que essas são apenas as ocorrências conhecidas, podendo existir outras situações que não foram identificadas como lesbocídio. Confira a seguir um infográfico com alguns dados desses casos que aconteceram em 2017:

Crédito: Fernanda Nunes da Silveira

População Trans

De acordo com a ONG Transgender Europe (TGEU), dentre 72 países, o Brasil é o que mais mata pessoas transexuais (homens e mulheres) no mundo. Os dados mais recentes dessa entidade mostram que 167 transexuais foram mortos no Brasil de outubro de 2017 a setembro de 2018.

Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% dos travestis e transexuais utilizam a prostituição como fonte de renda e possibilidade de subsistência. Essa organização também estima que a média de idade em que travestis e mulheres transexuais são expulsas de casa pelos pais é de 13 anos. Por isso, em geral, muitas dessas pessoas moram nas ruas e apresentam baixa escolaridade e dificuldades para a inserção no mercado de trabalho. Números do Projeto Além do Arco-Irís/AfroReggae apontam que cerca de 0,02% dessa população está na universidade, 72% não completou o ensino médio e 56% não têm o ensino fundamental.    

A Antra e o Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE) organizaram o Dossiê Assassinatos e violência contra Travestis e Transexuais no Brasil em 2018, no qual são apresentados dados dos casos registrados e conhecidos de homicídios e agressões contra esse grupo. Em 2018, ocorreram 163 Assassinatos de pessoas trans, sendo 158 travestis e mulheres transexuais, quatro homens trans e uma pessoa não-binária. Destes, foi encontrado notícias de 15 casos que tiveram os suspeitos presos, representando 9% das ocorrências.

Conforme o documento, em 76 casos não foi possível identificar a idade das vítimas. Nos demais, a mais jovem tinha 17 anos e a mais velha 49 anos.

Crédito: Fernanda Nunes da Silveira

Segundo o dossiê, 82% das pessoas mortas foram identificadas como negras e pardas. Nessa pesquisa, é explicado que um trans tem mais chances de ser assassinado do que um indivíduo cisgênero, entretanto, a maioria dos homicídios é das travestis e mulheres transexuais negras. Em seis casos dos 163 assassinatos notificados em 2018, não encontraram informações acerca da ferramenta ou do meio usado para cometer o homicídio. Os dados sobre as demais ocorrências podem ser verificados a seguir:

Crédito: Fernanda Nunes da Silveira

De acordo com o dossiê, 71 tentativas de homicídio foram registradas pela imprensa brasileira em 2018; todas essas vítimas são do gênero feminino e 72% delas são profissionais do sexo. Também aconteceram suicídios e mortes ocasionadas pelo uso de silicone industrial, o qual, em geral, é feito de um material nocivo para o corpo. No gráfico abaixo, esses números estão representados comparando os anos de 2016, 2017 e 2018.


Elaborado a partir dos dados do Dossiê Assassinatos e violência contra Travestis e Transexuais no Brasil em 2018
Crédito: Fernanda Nunes da Silveira

Produzido por:

  • Caroline Moreira, aspirante a jornalista, cursando o 9º semestre de Comunicação Social, feminista engajada, apaixonada por música, filmes e livros.
  • Fernanda Nunes, estudante do 9º semestre de Comunicação Social – Jornalismo, feminista, leitora incansável, gremista e apaixonada por séries, filmes e futebol.
  • Vitória Rocho, estudante do 9º semestre de Comunicação Social, futura jornalista e pesquisadora, marvete, musicófila, ativista LGBT+ e feminista.

Contato: desmistifica.feminismo@gmail.com

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