“Uma reivindicação específica do Feminismo Lésbico é existir”

Marília Daniel, formada em História pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) em 2018, conheceu o Feminismo na faculdade. Através da convivência com outras mulheres que já estavam presentes no movimento, foi possível o contato com outros círculos sociais e ideias, permitindo que Marília pudesse, além de saber mais, compreender o que, de fato, era o Feminismo.

Marília Daniel, militante do Feminismo Lésbico
Crédito: Fernanda Nunes da Silveira

Sua trajetória dentro do movimento pode ser dividida em dois momentos. O primeiro, dentro da universidade, onde ela relata ter ocorrido diversos casos de machismo em seu curso, o que desencadeou uma série de intervenções por parte dela e de colegas. “Era o Feminismo mais voltado para a realidade que eu convivia”, explica ao relatar como iniciou na militância. Já o segundo, iniciou após o desligamento do meio acadêmico. Segundo Marília, perde-se a convivência com diversos grupos e se encontram mais desafios para promover debates. “Quando você sai daqui e vai para a vida adulta, percebe que o mundo é enorme e que é difícil conseguir estabelecer as redes de contato que tinha na universidade. É muito custoso você fazer militância fora da vida acadêmica”, pondera.

Hoje, Marília é casada com Maria Carolina. Ambas vivem juntas e ela explica que o processo de oficialização do matrimônio foi muito tranquilo. Porém, o casamento não estava nos planos do casal que, embora desejava oficializar a união, não tinha a pretensão de realizar a cerimônia tão logo.  “Após a eleição do Bolsonaro, nós ficamos realmente apavoradas com a probabilidade de não podermos mais ter essa opção. E até por mostrar o quanto é importante que os casais LGBT se afirmem em números, ressaltando: ‘Nós existimos, nós queremos casar, sim. É um direito nosso e nós queremos ter ele’”, declara. O receio se justifica pelo fato de que o presidente Jair Bolsonaro trouxe para seu governo um Congresso com a maior bancada evangélica registrada, totalizando 91 deputados de 513 dos deputados eleitos.

Em 2011, o Supremo Tribunal Federal institucionalizou a união homossexual e, após dois anos, o Conselho Nacional de Justiça passou a exigir que todos os cartórios do país aceitassem realizar casamentos de pessoas do mesmo gênero. Porém, não foi criada nenhuma medida que mantenha protegido esse direito, de forma que a comunidade LGBT+ teme que as promessas de campanha do atual governante se cumpram. E Marília e Maria Caroline não são as únicas. A Associação dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen) registrou um aumento de 25% nos casamentos entre pessoas do mesmo sexo no país em 2018, no período entre janeiro a outubro, comparado ao ano anterior.

Feminismo Interseccional e Lésbico

Marcha Mundial das Mulheres, São Paulo, 2018
Crédito: Reprodução

Quando questionada sobre a interseccionalidade, Marília se põe a favor. “Nós não temos só um tipo de mulher”, destaca. Menciona ainda a multiplicidade que existe na sociedade. “Nossa cidade é composta por diversos tipos de mulheres em realidades distintas e se nós acharmos que um só Feminismo vai representar todas, não estamos fazendo nada de diferente do que já foi feito”, complementa.

O Feminismo Lésbico desafia a percepção da heterossexualidade e da supremacia masculina como “normal” e apresenta formas alternativas de pensar sobre gênero e poder. No entanto, as mulheres lésbicas enfrentam dificuldades ainda dentro do movimento feminista. “Eu acho que uma reivindicação específica do Feminismo lésbico é existir”, afirma Marília, questionando o pensar feminista quanto à violência doméstica, direito sobre o corpo, relacionamento abusivo, entre outros tópicos que parecem estar voltados para a mulher que se relaciona com homens. “Então, fica como uma das principais pautas, essa de existir dentro do Feminismo, de não só fazer com que as feministas heterossexuais percebam que nós existimos, mas fazer com que as mulheres lésbicas se aproximem do Feminismo”, reflete.

Como resultado do cerne heteronormativo, Marília analisa a razão de mulheres homossexuais não se fazerem tão presentes no movimento. Para ela, isso ocorre porque as demandas feministas não as representam e reforçam uma ideia de mulher que é propagada pela mídia. “Agora o capitalismo conseguiu se apropriar disso. O Feminismo aparece nas revistas, nas novelas e em tudo quanto é lugar e as feministas nesses espaços são brancas, são magras e femininas”, argumenta.

Para as mulheres lésbicas que não se identificam com o Feminismo, Marília indica que busquem outras fontes, aquelas que não sejam as rotineiras. “A Internet te dá a fonte, mas tem que ir procurar, tem que cavar para achar mais profundamente sobre aquilo e eu penso que as mulheres lésbicas que não estão se encontrando nessas pesquisas, nessas páginas na internet sobre o Feminismo, elas têm que procurar por ‘Feminismo Lésbico’”, explica. Enquanto a rede oferece uma vasta biblioteca com diferentes assuntos, as leituras, vídeos e áudios de mais fácil acesso são aqueles que se encaixam em uma demanda padronizada, que podem até ser de maior alcance, mas acabam sendo excludentes e limitadores. Quanto ao Feminismo, não é diferente. “Tenta buscar outras fontes e se não encontrar, fala comigo, porque eu acredito que nós temos que procurar a próxima. Eu acho que quando tentamos dar a mão, é aí que conseguimos, porque se ficarmos só para nós não vai dar, não vai ser possível”, considera.

Feminismo Lésbico Radical Político

Grupo Radicalesbians em passeata nos anos 1970
Crédito: Ellen Shumsky

O Feminismo Lésbico apresenta uma vertente que afirma que a heterossexualidade abrange muito mais que uma forma de desejo sexual, além de funcionar como uma instituição que apoia a supremacia masculina. Amor romântico, estruturas familiares, papéis tradicionais de gênero e até mesmo a estrutura econômica capitalista reforçaram a heterossexualidade, tornando-a compulsória e deixando a suposta normalidade inquestionável. Ao mesmo tempo em que a heterossexualidade ajuda a perpetuar a subordinação feminina, reforça os benefícios que as mulheres poderiam obter em parcerias com homens, o que lhes poderia conceder privilégios sociais e econômicos. A ameaça de perder essas vantagens impediria que as mulheres desafiassem o status quo e agissem de maneira que pudessem comprometer seu sua posição.

Um dos primeiros grupos feministas lésbicos, as Radicalesbians, argumentaram, em um ensaio de 1970, The Woman-Identified Woman (A Mulher Identificada pela Mulher), que as mulheres eram chamadas lésbicas (pejorativamente) independentemente de sua orientação sexual quando lutavam pela igualdade de gênero. O medo de ser rotulada como lésbica agiu como dissipador do movimento feminista, bem como restringiu o desenvolvimento da solidariedade entre as mulheres.

A partir dessa concepção, um ramo do Feminismo Lésbico sugere que todas as mulheres deveriam ser lésbicas como um ato político – ideia esta da qual Marília discorda. “Eu acho que ela não funciona. Acredito que a ideia de lésbica política ela existe como ‘eu sou lésbica e eu sou lésbica em uma sociedade que me ensina que eu sou errada’”, assinala. E complementa. “Eu sou uma pessoa lésbica e eu sou política por estar indo contra a norma, mas eu não acredito que seja possível que mulheres heterossexuais se assumam lésbicas por uma posição política. Acho que é inviável elas fingirem que a militância está acima das suas vidas pessoais”, pontua Marília.

Produzido por:

  • Caroline Moreira, aspirante a jornalista, cursando o 9º semestre de Comunicação Social, feminista engajada, apaixonada por música, filmes e livros.
  • Fernanda Nunes, estudante do 9º semestre de Comunicação Social – Jornalismo, feminista, leitora incansável, gremista e apaixonada por séries, filmes e futebol.
  • Vitória Rocho, estudante do 9º semestre de Comunicação Social, futura jornalista e pesquisadora, marvete, musicófila, ativista LGBT+ e feminista.

Contato: desmistifica.feminismo@gmail.com

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