“Sou uma mulher negra, pensante, crítica e que incomoda muitas pessoas”

“O meu processo de ter consciência de ser feminista começou quando entrei no movimento negro, porque antes de perceber que eu tinha que ter uma posição como mulher, eu percebi que tinha que ter uma posição como negra”, conta Cíntia Mara da Luz, militante do Feminismo Negro. Ela integra o Conselho Municipal da Promoção pela Igualdade Racial (COMPIR) de Santa Cruz do Sul. Em 2017, começou o Mestrado em Desenvolvimento Regional na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), desenvolvendo a dissertação que aborda a imagem do negro na publicidade dos municípios do Vale do Rio Pardo.

Cíntia Mara da Luz, militante do Feminismo Negro
Crédito: Caroline Moreira

Hoje, aos 40 anos, ela reflete a respeito das suas experiências de vida. “Desde pequena, eu sempre tive essa percepção do meu lugar no mundo como sendo negra e, dentro de casa, meu pai e minha mãe me conscientizaram das dificuldades que eu teria no mundo por ser negra”, relata.

Cíntia nasceu em Santa Cruz do Sul, onde mora até hoje, no centro da cidade. “Na minha rua, nós somos a única família de negros”, diz. Na escola onde estudou até a 8ª série, a maioria era de crianças brancas. “Sempre fui a única aluna negra da minha sala de aula e foi a partir dessa vivência que tive essa percepção de ser negra”, lembra.

Depois, estudou em uma escola da periferia, na qual o grupo de colegas negros aumentou e os professores tentavam fazer um ensino mais democrático com relação às etnias dos alunos. Ela ingressou no movimento negro aos 18 anos. “Eu percebi que, dentro do movimento, não conseguia falar, não me ouviam e me deixavam de lado, algo que acontecia com as outras mulheres também”, explica acerca da dificuldade delas terem suas vozes escutadas. Nesse momento, notou que, além da questão da negritude, ela era uma mulher negra e tinha que lutar pelo Feminismo. “Nós vivemos em uma sociedade machista e racista, então, após esse processo de identificação, percebi que teria que somar as duas lutas: uma do movimento negro e uma contra o machismo”, discorre sobre seu início como militante do Feminismo Negro.

Dentro de casa, ela conta que a presença mais forte que teve sempre foi a de sua mãe. “A questão do machismo eu não sentia tanto, porque era a minha mãe que tinha o comando de voz, a quem eu tinha que prestar conta dos meus estudos e quem me colocava nas regras”, relata. Já em outros locais, observa que é muito difícil as mulheres negras serem escutadas, especialmente no ambiente acadêmico. “Muitas vezes, para conversar e colocar nossas ideias, é preciso levantar mais o tom de voz ou se impor mais vigorosamente para as pessoas pararem e nos ouvirem”, assinala.

Na sua caminhada para conseguir se posicionar diante da sua realidade, Cíntia destaca dois momentos: a participação no clube social negro da Sociedade Cultural Beneficente União (S.C.B. União) e a graduação em Publicidade e Propaganda no curso de Comunicação Social da Unisc. Nesse clube, quando conheceu a história da instituição e das pessoas que por ali passaram, notou a questão da separação e da segregação, a qual considera que muitos não enxergam tão claramente. “Nesse momento, eu busquei mais conhecimento para poder me fortalecer e me impor nas discussões e nas conversas de grupos de amigos a respeito do que não achava certo”, conta. Já na monografia do seu curso, Cíntia abordou a invisibilidade do negro na publicidade de Santa Cruz do Sul. “Foi nesse processo que eu encontrei autores e escritores para dialogar com esse meu sentimento para eu poder verbalizar que certas coisas são formas de racismo e de preconceito e que devemos pensar e refletir sobre o que está acontecendo”, explica.

Ao longo da sua graduação, também observou poucos negros dentro do ambiente acadêmico. “Quando nós pensamos a sociedade em um todo, sabemos que ela é machista, elitista e racista. E a universidade é um reflexo disso”, analisa. Para Cíntia, apenas uma parcela da população está pensando e refletindo sobre os problemas de fora da instituição. “A partir do momento que a universidade não abrange todo percentual populacional da sociedade, ela acaba se tornando um espaço restrito, pequeno e mais agressivo”, pondera. A publicitária explica que, fora desse ambiente, há o convívio com a família e com pessoas negras. “Mas, na universidade, você é um que vai questionar trinta dentro de uma sala de aula ou, às vezes, questionar um professor que nunca parou para refletir sobre o assunto”, considera.

Após concluir o curso de Publicidade e Propaganda em 2008, Cíntia teve dificuldades em atuar no mercado da Comunicação. Teve um emprego na área logo depois de formada, mas a empresa fechou. Em seguida, enviou currículos e participou de processos seletivos em outras organizações. “Fazia testes online, briefings e campanhas e era aprovada nessas partes. Nas entrevistas e dinâmicas de grupo também passava e na entrevista individual era barrada”, relata.

Depois disso, ela se voltou para a área de desenvolvimento de projetos socioculturais, no intuito de resgatar a história do negro e valorizar a sua cultura, principalmente em Santa Cruz do Sul e na periferia da cidade. Além disso, desde 2009, planeja e elabora campanhas publicitárias para a S.C.B. União.

Feminismo Negro

Marcha das Mulheres Negras em 2015
Crédito: Ana Carolina Barros

“Sou uma mulher negra, pensante, crítica e que incomoda muitas pessoas, porque me conscientizei desse mundo racista que vivemos, o qual não tem lógica nenhuma biológica de ser assim e sim uma lógica construída socialmente de forma proposital”, reflete Cíntia a respeito da sua realidade.

Após suas leituras sobre feminismo, Cíntia passou a contestar certas coisas que são consideradas atividades apenas das mulheres como, por exemplo, cozinhar, limpar e cuidar da casa. Ela se questionou: “por que é esse o papel da mulher?”. Para a publicitária, o feminismo não se trata delas quererem ser iguais aos homens. “Biologicamente, não podemos ser iguais a eles e também não podemos discutir a questão de força, mas intelectualmente é justo que se dividam as tarefas”, explica.

Ela concorda com a ideia da interseccionalidade no movimento feminista. “Eu não posso separar as duas coisas: ser mulher e ser negra. Eu sou Cintia Mara da Luz, mulher negra, santa-cruzense, afro-gaúcha. Mas, na questão da classe social, eu moro no centro, portanto, não senti o preconceito de ser da periferia. E se eu fosse uma mulher trans ou fosse lésbica, isso se acumularia, porque faz parte da essência da pessoa”, pondera.

Com relação ao feminismo radical, Cíntia diz que entende, porém não concorda. “Eu entendo porque chega num ponto da vida que percebe que se não chegar chutando a porta, a coisa não anda e não consegue ser ouvida. Mas, nesse caso, as coisas são conduzidas a um extremo e as pessoas acabam levando a discussão para outro lado que não é o que queremos”, considera.

Na sua visão do feminismo, ela acredita que devemos dialogar e, em certos momentos, realmente é preciso ser mais firme – no entanto, sem levar ao extremo. “Eu penso assim: no movimento, nós somos quase um exército, no qual tem o pessoal da linha de frente dando tiro, o da estratégia que fica pensando e refletindo para dizer como devemos ir – que poderiam ser os acadêmicos – e tem o pessoal que participa das passeatas e bota a cara a tapa para mostrar que temos força”, explica.

O feminismo negro apresenta suas reivindicações específicas. Para Cíntia, as exigências relacionadas ao trabalho das mulheres de etnias diferentes são um exemplo. “Na época do sufragismo, enquanto as brancas, da elite e com estudo queriam sair de casa para poder trabalhar, as negras já faziam isso desde pequenas e o que elas queriam eram melhores condições de trabalho, o que não foi pensado”, relata. Também, cita a situação das domésticas no Brasil que, apenas em 2015, obtiveram uma legislação para regulamentar a profissão, a qual é constituída majoritariamente de mulheres negras. “Enquanto algumas estão correndo para equiparar o salário com os homens – como uma engenheira com um engenheiro -, as domésticas negras estão querendo ter um salário digno e poder ficar final de semana em casa”, diferencia.

Outra questão mencionada é a da sexualização do corpo da mulher negra, a qual ocorre em maior grau do que o da branca. “Se falar em carnaval no Brasil para um estrangeiro, ele pensa em mulher negra prostituta. É um sinônimo”, exemplifica.

Para Cíntia, a crítica do feminismo negro ao movimento mainstream é a de que existem pontos de vista, demandas e experiências diferentes e todos têm as suas legitimidades. “As mulheres negras também são as que mais sofrem com a violência doméstica, são as que mais têm filhos mortos pela polícia ou pelo tráfico e são as que mais ficam tempo fora de casa”, analisa sobre as exigências específicas desse grupo.

Confira o que Cíntia diz para inspirar mulheres negras a valorizarem o que é próprio da sua cultura, empoderarem-se e se envolverem com o Feminismo:

Produzido por:

  • Caroline Moreira, aspirante a jornalista, cursando o 9º semestre de Comunicação Social, feminista engajada, apaixonada por música, filmes e livros.
  • Fernanda Nunes, estudante do 9º semestre de Comunicação Social – Jornalismo, feminista, leitora incansável, gremista e apaixonada por séries, filmes e futebol.
  • Vitória Rocho, estudante do 9º semestre de Comunicação Social, futura jornalista e pesquisadora, marvete, musicófila, ativista LGBT+ e feminista.

Contato: desmistifica.feminismo@gmail.com

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