O homem no Feminismo: diferentes perspectivas

A participação ou não do homem no movimento feminista é muito debatida e cada vertente apresenta a sua posição a respeito desse assunto. Durante muito tempo, ele foi visto apenas como opressor e não como possível aliado. No livro Sejamos Todos Feministas, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie explica que “alguns homens se sentem ameaçados pela ideia do Feminismo”. Para a autora, eles foram criados como naturalmente dominadores e sentem uma grande insegurança de perderem isso e, também, há aqueles que “enfrentem a palavra Feminismo da seguinte maneira: ‘Tudo bem, isso é interessante, mas não é meu modo de pensar. Aliás, eu nem sequer penso na questão de gênero’”, mostrando que entendem o posicionamento das feministas, porém não se envolvem na causa.

Por um lado, existem mulheres no movimento que defendem que os homens não podem participar e nem se identificarem como feministas, porque eles são os responsáveis pela opressão feminina e se beneficiam dela. Para elas, esses sujeitos têm privilégios dentro da sociedade e não conseguiriam compreender a luta das mulheres contra o machismo e as violências – simbólicas ou não – que sofrem.

Por outro, têm outras vertentes feministas, que consideram que os homens podem apoiar o movimento e as reivindicações para a igualdade de gênero. Hoje, há, inclusive, discussões dentro do Feminismo sobre a construção do gênero masculino e dos modelos de masculinidade hegemônica e tóxica, a qual se reflete no papel desempenhado por esse sujeito no movimento e na sociedade.

Também, existem participações diferentes. Por exemplo, uma das pautas do Feminismo é conseguir maior presença e cooperação dos homens na esfera familiar, tanto para dividir as tarefas domésticas quanto para cuidar dos filhos. Mas, há ainda a atuação dentro do movimento como apoiador da luta e das reivindicações das mulheres. Afinal, um homem pode se dizer feminista? Se sim, qual o lugar de fala dele?

O papel do homem no Feminismo

Crédito: Google Imagens

A advogada e pesquisadora Nicole Weber entende que existem várias ideias a respeito do papel do homem no Feminismo, inclusive mulheres que consideram que ele deve ser apenas um apoiador. “Eu sou da corrente teórica e das autorias que homem feminista existe e é importante para o movimento também”, afirma. Para ela, o conceito de feminista é de uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os gêneros. “O Feminismo é um ato político, no qual o protagonismo é da mulher, mas, sim, deve e pode existir homens feministas também”, explica Nicole.

O professor e pesquisador Rafael Eisinger Guimarães concorda com essa ideia, pois, para ele, existe a possibilidade dos homens se considerarem feministas quando entenderem o conceito de Feminismo. “Não é uma luta das mulheres contra os homens, o movimento não os têm como seus inimigos a serem combatidos e, sim, é uma luta contra o machismo, a opressão e o sexismo e os homens podem se tornar aliados”, pondera. Contudo, ele ressalta: “O lugar de fala no Feminismo vai ser sempre da mulher, que é o sujeito que sofre de maneira mais direta a opressão do sexismo e do machismo”.

Nesse sentido, os homens poderiam desempenhar papéis que contribuam para a melhora da vida das mulheres. Práticas, estas, para serem realizadas no cotidiano, em casa, no trabalho, na rua, em todos os espaços. Conforme Chimamanda Adichie, em seu livro, eles precisam se manifestar em todas as situações – sobretudo, nas ocorrências de micromachismos – em que acontecem diferenciações entre os gêneros.  Segundo a psicóloga e pesquisadora Gabriela Maia, o homem deve “refletir sobre si mesmo, seus machismos e sua educação dentro de um modelo de masculinidade e desconstruir esse machismo nos seus amigos”. Para Rafael, eles devem compartilhar informações corretas sobre o Feminismo com os familiares e amigos homens, até mesmo corrigindo falas e atitudes machistas.

Rafael Guimarães explica que o patriarcado é o alicerce da nossa sociedade nas esferas econômica, cultural e social. Ele considera que os comportamentos e as atitudes machistas e sexistas estão profundamente arraigados no nosso imaginário, cotidiano e jeito de ser e, muitas vezes, isso acontece sem percebermos. “Por isso, nós homens temos que nos policiarmos em certas manifestações e coisas que dissemos”, ressalta sobre a necessidade de atenção para mostrar e entender que o sexismo existe. No seu livro, Chimamanda Adichie concorda com a ideia de que deve haver o reconhecimento de que, por muito tempo, “os seres humanos foram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro”.

Nicole Weber considera que é necessária e muito relevante a participação do homem na luta pela igualdade entre os gêneros. “Eu acredito que, como nós estamos vivendo todos juntos, se tivermos mais pessoas trabalhando pelo mesmo bem comum, vamos ter mais êxito”, explica. Ela cita alguns aspectos positivos na questão de um homem ser feminista. “Isso vai refletir na educação de filhas e de filhos respeitadores, em ambientes sociais e profissionais, em relacionamentos amorosos e, obviamente, na redução de crimes e de desrespeito contra a mulher e na diminuição da masculinidade tóxica”, exemplifica.

Em seu livro, Chimamanda Adichie escreve que acredita que podemos mudar a cultura de subordinação das mulheres para uma mais igualitária, porque a cultura está sempre em transformação. A autora termina sua obra com a frase: “A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz: ‘Sim, existe um problema de gênero ainda hoje e temos que resolvê-lo, temos que melhorar’. Todos nós, homens e mulheres, temos que melhorar”.

O Feminismo pode ser bom para os homens? Confira o vídeo.

Entrevistados:

Produzido por:

  • Caroline Moreira, aspirante a jornalista, cursando o 9º semestre de Comunicação Social, feminista engajada, apaixonada por música, filmes e livros.
  • Fernanda Nunes, estudante do 9º semestre de Comunicação Social – Jornalismo, feminista, leitora incansável, gremista e apaixonada por séries, filmes e futebol.
  • Vitória Rocho, estudante do 9º semestre de Comunicação Social, futura jornalista e pesquisadora, marvete, musicófila, ativista LGBT+ e feminista.

Contato: desmistifica.feminismo@gmail.com

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