Micromachismo: Uma violência sutil

O termo micromachismo foi cunhado pelo psicoterapeuta espanhol Luis Bonino Méndez em 1991, contudo, apenas recentemente começou a ser mais discutido. No artigo Micromachismos: La Violencia Invisible en la Pareja (Micromachismos: A Violência Invisível entre Parceiros), este autor escreve que a violência de gênero pode ser pensada como “toda ação que coage, limita ou restringe a liberdade e dignidade das mulheres” e, nesse sentido, “são ignoradas múltiplas práticas de violência e dominação masculina no cotidiano, algumas consideradas normais, algumas invisibilizadas e outras legitimadas, e que, por isso, são executadas impunemente”.

Crédito: Google Imagens

Diante disso, existem atitudes e frases que colocam as mulheres como inferiores ou subordinadas aos homens, nas quais é mais fácil notar o machismo. Já os micromachismos se manifestam de maneiras muito sutis. São pequenos gestos, expressões e comentários que não reconhecemos – tão facilmente – como machistas por estarem enraizados na cultura sexista. Segundo a advogada e pesquisadora Nicole Weber, são denominados micro exatamente pela razão de que não percebemos o machismo neles.

Nicole Weber cita a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, a qual trata de questões relacionadas aos micromachismos. “Quando um sujeito entra num restaurante e o garçom o cumprimenta, será que não passa pela cabeça dele perguntar por que o garçom não cumprimentou sua acompanhante?”, questiona a autora nigeriana em seu livro Sejamos Todos Feministas, exemplificando uma situação desse tipo de comportamento de diferenciação entre os gêneros.

Os micromachismos são tão comuns e imperceptíveis que acabam sendo considerados “normais” e são até mesmo aceitos pela sociedade, porque os indivíduos aprenderam, por meio da educação e da socialização, uma cultura de condutas machistas. No seu artigo, o psicoterapeuta Luis Bonino Méndez escreve que a nossa cultura legitimou “a crença de que o masculino é o único gênero com direito ao poder autoafirmativo: ser homem supõe ter o direito a ser um indivíduo completo com todos os seus direitos (e direito a exercê-los)” e isso é negado às mulheres. O machismo e o micromachismo são formas de reafirmar a posição de superioridade e dominação dos homens (link com a matéria secundária de masculinidade tóxica). Nicole Weber explica que eles aparecem em “várias coisas no dia a dia que as pessoas têm uma barreira porque acham que não tem capacidade ou que não pode por alguma valoração moral – o que é um mito – e elas nem se dão conta de que estão agindo dessa forma”.

Confira nos vídeos a seguir, alguns exemplos de frases de micromachismos lidas por homens:

De acordo com o psicoterapeuta, em seu artigo, é importante a exposição dos micromachismos porque são comportamentos habituais que “passam despercebidos ou tomados como naturais, ignorando seus danos”. Essas atitudes abalam a autoestima das mulheres e prejudicam a sua vida e a relação com o outro. Para Nicole Weber, eles têm que ser corrigidos na hora em que acontecem com diálogo e respeito, mostrando os motivos daquilo estar errado. “Porque aquela pessoa nunca mais vai esquecer”, explica a advogada.

Luis Bonino Méndez ainda propõe em seu artigo uma mudança de pensamento para os homens: “estarem dispostos a uma autocrítica sobre o exercício cotidiano de poder e sobre a socialização em que eles são criados, aquela que endossa a superioridade sobre as mulheres e, portanto, a crença em ter direitos sobre elas”. Nesse sentido, seria possível uma melhora da relação deles com as mulheres e, sobretudo, diminuiriam as influências na limitação da liberdade e da autonomia delas.

Segundo Nicole Weber, é grande a importância de dialogar com as pessoas sobre machismo e micromachismo, porque “vai fazer elas alastrarem essa ideia e esse tipo de comportamento ao redor”. Ela também destaca que é preciso que os próprios homens tenham esse tipo de atitude. “Quando um homem corrige outro que está fazendo um micromachismo também é um ato feminista e que vai se alastrar também”, ressalta a advogada e pesquisadora.

Entrevistada:

Produzido por:

  • Caroline Moreira, aspirante a jornalista, cursando o 9º semestre de Comunicação Social, feminista engajada, apaixonada por música, filmes e livros.
  • Fernanda Nunes, estudante do 9º semestre de Comunicação Social – Jornalismo, feminista, leitora incansável, gremista e apaixonada por séries, filmes e futebol.
  • Vitória Rocho, estudante do 9º semestre de Comunicação Social, futura jornalista e pesquisadora, marvete, musicófila, ativista LGBT+ e feminista.

Contato: desmistifica.feminismo@gmail.com

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