Masculinidade tóxica: prejudicial para as mulheres e um perigo para os homens

Na sociedade em que vivemos, masculinidade e feminilidade são palavras que descrevem extremidades opostas, como, por exemplo, proatividade e receptividade, lógica e intuição, estoicidade e emoção. Porém, não é como se os homens fossem inerentemente masculinos e as mulheres a personificação do feminino – todos possuem aspectos de ambos em suas personalidades, ainda que, muitas vezes, espera-se que haja um encaixe perfeito entre um gênero e o que foi construído para se esperar dele.

Esse conjunto de regras não escritas tem suas raízes no colonialismo eurocêntrico, que buscou ordenar a vida social e estabelecer a hierarquia por meio de um sistema de gênero imposto. Isso significa que existem maneiras certas e erradas de ser homem e de ser mulher, de forma que há recompensas por reforçar essas ideias e penalidades por violá-las. Para a advogada e pesquisadora Nicole Weber, “essa conceitualização do que é feminino e do que é masculino acontece desde que estamos na barriga e que os pais descobrem o nosso sexo”. Qualquer um que tenha sido envergonhado por ser sensível demais quando menino ou muito enérgica quando menina, experimentou esse código social em ação.

Um dos problemas que acompanha essa realidade é que apresentar características masculinas e femininas não são aspectos igualmente valorizados em nossa sociedade. Vivemos em um patriarcado, ou seja, nosso sistema social é aquele no qual os homens são considerados e tratados como mais aptos do que pessoas de outros gêneros.

Crédito: Agência de Notícias da Favela – ANF

Origem do termo masculinidade tóxica

O primeiro uso da expressão “masculinidade tóxica” é creditado ao autor e professor Shepherd Bliss, um dos líderes do ativismo do movimento mitopoético masculino que surgiu nos anos 1980 e tinha como objetivo ressignificar o homem, essencialmente remover os arquétipos limitados como “guerreiro” e “rei” originados no histórico de colonização e finalizar o determinismo biológico e o pensamento hierárquico. Em 1987, um artigo de autoria do próprio Bliss intitulado Revisioning Masculinity: A report on the growing men’s movement (Revendo Masculinidade: Um relatório sobre o movimento dos homens em crescimento), ele descreve a mitopoética e discorre sobre um retorno à masculinidade cooperativa pré-industrial ao invés de masculinidade tecnológica competitiva.

Originalmente, em seus trabalhos, Bliss usou o termo para identificar comportamentos que eram tóxicos para os homens, tais como: negação à expressão emocional, extrema autossuficiência, aspiração por dominância física, sexual e intelectual, desvalorização das opiniões das mulheres e condenação de qualquer característica dita feminina em outro homem. Seu significado original mostra a masculinidade tóxica como uma maneira de reunir e identificar traços culturais e sociais que são inimigos não apenas das mulheres, mas também dos homens. As consequências dessa realidade envolviam problemas de saúde mental que continuam se repetindo após mais de três décadas, já que o suicídio é a terceira causa de morte entre homens de 15 a 29 anos no Brasil. Há números semelhantes em todo o mundo, fato que ocasionou na criação de organizações e estudos com o propósito de divulgar informações e ajudar na prevenção de casos extremos.

Tradução: Você pode ser masculino sem ser tóxico, mano. #VerdadeAoPoder
Crédito: Sundry Photography

Masculinidade Tóxica X Masculinidade Hegemônica

A masculinidade tóxica já foi vista como outro nome possível para a masculinidade hegemônica, ou, mais especificamente, como um dos aspectos mais extremos dela. A masculinidade hegemônica é um conceito desenvolvido pela socióloga australiana Raewyn Connell e é definido em seu livro Masculinidades como uma “prática que legitima a posição dominante dos homens na sociedade e justifica a subordinação das mulheres e outros modos marginalizados de ser homem”. Basicamente, é sobre a forma culturalmente idealizada de masculinidade que está relacionada às conquistas do dia a dia. Para a psicóloga e pesquisadora Gabriela Felten da Maia, é um modelo que hierarquiza as relações entre homens e entre as mulheres também, porque coloca o feminino como inferior. “A questão da masculinidade hegemônica é o quanto alguém se aproxima ou se afasta de uma feminilidade. E os outros homens que são colocados como subalternos, são, em geral, os que teriam maior proximidade com o feminino e, portanto, não ascendem ao lugar do que é ser um homem”, explica Gabriela Maia.

Conforme descrito pelo acadêmico de psiquiatria Terry Kupers, em seu artigo Toxic Masculinity as a Barrier to Mental Health Treatment in Prison (Masculinidade Tóxica como Barreira ao Tratamento da Saúde Mental na Prisão), a masculinidade hegemônica pode ser definida como uma noção estereotipada “que molda a socialização e as aspirações dos jovens do sexo masculino, incluindo um alto grau de competição implacável, incapacidade de expressar emoções além da raiva, falta de vontade de admitir fraqueza ou dependência, desvalorização das mulheres e todos os atributos femininos nos homens, homofobia e assim por diante”.

Essas características são baseadas em valores conservacionistas e antiquados, mas que ainda hoje se fazem presentes no que a sociedade acredita ser o “homem real”. Segundo Gabriela Maia, o maior sofrimento que esse ideal de masculinidade causa é o de que nenhum homem consegue alcançá-lo e “o fracasso é reiterado através da violência ou do adoecimento”. Por isso, leva meninos a crescer acreditando que eles não deveriam demonstrar vulnerabilidade e procurar conselhos de saúde de médicos, muito menos buscar ajuda de saúde mental.

Os homens que aderem a essa necessidade de domínio e controle social são mais propensos a sofrer de estresse, depressão e dependência. E com o tabu com o feminino e sua associação com mulheres e homossexuais, o alcance prejudicial é ampliado. No entanto, ao reconhecer a masculinidade tóxica como o aspecto da masculinidade hegemônica em sua pior forma, podemos identificar as áreas que precisam ser trabalhadas.

A masculinidade tóxica, portanto, é um conjunto de comportamentos aprendidos desde a infância que surgem da premissa patriarcal de viver em um sistema que, por gerações, privilegiou a experiência masculina acima de tudo. É o desequilíbrio pessoal e coletivo que resulta da valorização do masculino. De acordo com a psicóloga e professora Alba Regina Zacharias, esse ideal refere-se a características e definições que a sociedade impõe ao masculino e é tóxico porque prejudica tanto o homem quanto a mulher. “E pode matá-lo porque ele fica achando, por exemplo, que não pode levar desaforo para casa. Então, entra numa briga e pode ter um problema sério”, ressalta. Ela ainda explica que há a necessidade de buscar ajuda profissional quando houver a percepção de que tais atitudes estão afetando negativamente o seu lado emocional.

https://soundcloud.com/vika-rocho/alba-regina-zacharias-masculinidade-toxica-1

Segundo a advogada e pesquisadora Nicole Weber, a masculinidade tóxica “se dá desde o nascimento daquele menino, desde as primeiras palavras que ele vai emitir e os primeiros movimentos, porque estes têm que ser masculinos”. Ela também considera que a masculinidade tóxica prejudica todos os gêneros. “Eu diria que, nos primeiros anos de vida, ela mina o homem e depois, com o passar das relações amorosas e de amizades e do convívio com a mãe e com a família, vai refletir nas mulheres, porque já vai estar intrínseco naquela personalidade”, pondera.

Nesse sentido, o professor e pesquisador Rafael Eisinger Guimarães explica que, nesse tipo de modelo de conduta, os homens são educados “também dentro de uma espécie de camisa de força que coloca papéis muito limitados”, impedindo-os de fazer outras coisas que são positivas e benéficas para eles e para a sociedade. Em relação à educação, Nicole Weber considera que a masculinidade tóxica tem que ser trabalhada desde a casa com os pais, em paralelo com o machismo e o Feminismo, a fim de passar isso para os filhos. A psicóloga e professora Alba Zacharias explica que uma criação diferente para meninos e para meninas influencia no pensamento e comportamento deles.

https://soundcloud.com/vika-rocho/alba-regina-zacharias-masculinidade-toxica-2

Por fim, é importante notar que isso é negativo a todos. Homens têm um extenso poder material na atual circunstância, mas esse poder é frequentemente alcançado de maneiras prejudiciais que exigem negação da autoexpressão e supressão da emoção. A fim de uma solução para masculinidade tóxica, precisamos ter uma visão que inclua a valorização do masculino e do feminino na mesma proporção. Para Nicole Weber, na personalidade e psique de uma pessoa, ela não está definida por masculino ou feminino. Por isso, esse sujeito, muitas vezes, vai ser infeliz já que não alcança os modelos ideais de comportamento determinados para ele. “Trabalhar a desconstrução da masculinidade tóxica é cuidar dos meninos e tornar o mundo melhor para sociedade em geral, tanto para as mulheres quanto para os homens”, finaliza a advogada e pesquisadora.

Entrevistados:

Produzido por:

  • Caroline Moreira, aspirante a jornalista, cursando o 9º semestre de Comunicação Social, feminista engajada, apaixonada por música, filmes e livros.
  • Fernanda Nunes, estudante do 9º semestre de Comunicação Social – Jornalismo, feminista, leitora incansável, gremista e apaixonada por séries, filmes e futebol.
  • Vitória Rocho, estudante do 9º semestre de Comunicação Social, futura jornalista e pesquisadora, marvete, musicófila, ativista LGBT+ e feminista.

Contato: desmistifica.feminismo@gmail.com

Saiba mais:

Deixe uma resposta