Interseccionalidade e Diversidade no Feminismo

A estudiosa jurídica Kimberlé Crenshaw cunhou o termo interseccionalidade em seu perspicaz ensaio de 1989, “Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist Politics” (Desmarginalizando a Intersecção entre Raça e Sexo: Uma Crítica Feminista Negra à Doutrina Antidiscriminação, Teoria Feminista e Política Antirracista), no qual apresentou um conceito para além de uma noção resumida, mas uma descrição do modo como múltiplas opressões são experimentadas. Crenshaw usa a seguinte analogia, referindo-se a um cruzamento de tráfego (traffic intersection) para concretizar o conceito:

Considere a analogia ao tráfego num cruzamento, indo e vindo nas quatro direções. A discriminação, como o tráfego no cruzamento, pode fluir numa ou noutra direção. Se um acidente acontece no cruzamento, sua causa pode ser os carros viajando de quaisquer direções e, as vezes, de todas elas. De modo similar, se uma mulher negra sofre injúrias por estar numa intersecção, elas podem resultar da discriminação sexual ou racial […] Mas nem sempre é fácil reconstruir um acidente: às vezes as marcas de derrapagem e as lesões indicam simplesmente que elas ocorreram simultaneamente, frustrando os esforços em determinar qual o motorista responsável (Kimberlé Williams Crenshaw, 1989, p. 149).

Ainda que estivesse se referindo inicialmente ao racismo sofrido pelas mulheres negras em intersecção com o sexismo existente na época, este conceito, hoje, abrange também outras formas de preconceito, dentre eles, o contra as diversidades sexual e de gênero.

Essa corrente de pensamento feminista entende que, para que o movimento inclua todas as mulheres, é preciso problematizar as questões e as diferenças de cada etnia, classe e sexualidade. A ideia é representar os pontos de vista de todas elas, a fim de que possam ter suas reivindicações ouvidas e atendidas. Dentro desse ramo, existem vertentes de grupos sociais específicos, como os Feminismos Negro, Lésbico e Trans (ou Transfeminismo).

Crédito: Lisa Welsh/Pinterest

Feminismo Negro

Crédito: Linoca Souza

Segundo a psicóloga e pesquisadora Gabriela Maia, existem vários Feminismos Negros, pois há movimentos localizados na África, nos Estados Unidos e no Brasil. O movimento feminista negro norte-americano surge nas décadas de 1970 e 1980, com as teóricas Angela Davis, Patricia Hill Collins, bell hooks, Kimberlé Crenshaw e Audre Lorde questionando que a falta da inclusão das negras na discussão feminista. Na época, “as mulheres brancas estavam discutindo desigualdade salarial, estupro, aborto, divisão sexual do trabalho doméstico e acesso educacional”, explica a pesquisadora. Ela complementa que as negras tinham outras demandas, como a pobreza, a violência e o trabalho como domésticas ou em serviços subalternos.

No artigo Enegrecendo as redes: o ativismo de mulheres negras no espaço virtual, Renata Malta e Laila Oliveira apontam que devido à redução da categoria mulher a uma identidade única e fixa realizada pelo Feminismo tradicional, as negras mostravam que a interseccionalidade era necessária para a compreensão da realidade delas e das suas múltiplas identidades.

No Brasil, o Feminismo Negro também surge nesse período. Dentro do movimento negro brasileiro, as mulheres sentiam dificuldades de serem ouvidas e encontraram no Feminismo uma forma de reivindicar seus direitos e seu espaço. “No país, há uma política pública que tem a incorporação da dimensão racial como uma questão de saúde, porque esse é um determinante social que provoca maiores adoecimentos por causa da violência, da precariedade do acesso aos direitos, bens e serviços estatais, da pobreza ou da falta de condições básicas onde essa população mora”, relata Gabriela Maia. Ela destaca também que hoje se pensa que o racismo pode desenvolver problemas de saúde mental como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Além disso, a pesquisadora cita as políticas de cotas e de ações afirmativas que procuram tentar diminuir a desigualdade entre as populações branca e negra.

Diferentemente dos Estados Unidos, que teve o racismo institucionalizado em lei e que foi contestado pelo movimento negro, no Brasil isso não aconteceu. “No nosso país, o Feminismo Negro tem tentado visibilizar que somos uma sociedade racista, apesar de não ter existido uma legislação dessas, e temos que falar sobre esse assunto, colocando em evidência a história do Brasil que é racista e que mostra o genocídio do povo negro”, explica Gabriela Maia.

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Feminismo Lésbico

Crédito: Moish Pain/Instagram

Essa vertente também começa nas décadas de 1970 e 1980, com teóricas dos Estados Unidos. Conforme Gabriela Maia, elas percebiam que o movimento feminista da época não considerava a heterossexualidade como uma forma de opressão, apenas falavam que a sexualidade era uma maneira de controlar as mulheres dentro de relações heterossexuais – como, por exemplo, no casamento, em casos de estupro e na questão reprodutiva. Por isso, as feministas lésbicas “cunharam o termo heterossexualidade compulsória ou obrigatória como um sistema de opressão”, pontua.

Essas feministas questionam a divisão do corpo humano em masculino e feminino e o pensamento de que esses dois são complementares. “A ideia de que obrigatoriamente todas as mulheres devem estar disponíveis para um homem atinge as lésbicas de forma muito intensa porque leva a uma série de violências que as heterossexuais não sofrem, ao próprio silenciamento das suas experiências e a negação da mulheridade delas”, explica Gabriela Maia.

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Feminismo Trans ou Transfeminismo

Crédito: Google Imagens

Uma das principais pautas das mulheres feministas trans é a luta pela presença dentro do movimento feminista. De acordo com Gabriela Maia, essa vertente parte da discussão do Feminismo Lésbico, questionando o alinhamento de um sexo para um gênero para uma sexualidade. Para as feministas trans, a ideia da “heterossexualidade como o caminho e destino das pessoas opera junto com o sistema cissexista, o qual se trata da divisão do sexo de forma binária: macho e fêmea”, ressalta.

Segundo a pesquisadora, isso causa problemas porque se uma mulher é definida por seu sexo, uma mulher com pênis não seria uma mulher. Nesse sentido, as feministas trans identificam a cisnormatividade como estrutura opressora e questionam esses modelos normativos da sociedade.

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Relatos feministas

Quer conhecer histórias de feministas desses grupos sociais? A reportagem traz depoimentos de três mulheres que participam dos Feminismos Negro, Lésbico e Trans. No vídeo a seguir, confira uma prévia.

Elas também responderam o que o Feminismo significa para elas. Ouça:

Entrevistada:

Produzido por:

  • Caroline Moreira, aspirante a jornalista, cursando o 9º semestre de Comunicação Social, feminista engajada, apaixonada por música, filmes e livros.
  • Fernanda Nunes, estudante do 9º semestre de Comunicação Social – Jornalismo, feminista, leitora incansável, gremista e apaixonada por séries, filmes e futebol.
  • Vitória Rocho, estudante do 9º semestre de Comunicação Social, futura jornalista e pesquisadora, marvete, musicófila, ativista LGBT+ e feminista.

Contato: desmistifica.feminismo@gmail.com

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