Feminismo e suas vertentes

Se você simplesmente perguntar a uma pessoa se ela acredita que homens e mulheres devem ser tratados igualmente, pagos igualmente e, em geral, ter direitos iguais, a maioria delas irá responder que sim. Então, se tantas pessoas acreditam nisso, por que elas não se denominam feministas?

A ideia global do feminismo refere-se à crença de que homens e mulheres merecem igualdade em todas as oportunidades, tratamento, respeito e direitos sociais. Resumidamente, as feministas são pessoas que tentam reconhecer a desigualdade social baseada no gênero e impedir que ela continue, apontando que, na maioria das culturas ao longo da história, os homens receberam mais oportunidades que as mulheres.

Embora esta ideia basilar do feminismo pareça bastante simples, há muitas pessoas que entendem mal qual é o seu objetivo. Infelizmente, nossa sociedade nos dá muitos estereótipos e nem sempre eles são precisos. Quando perguntadas se são feministas, a maioria das mulheres nega ou sente-se constrangida em assumir sua posição de concordância com as ideias do movimento. Porém, isso ocorre porque as pessoas não estão realmente conscientes de que existem diversos feminismos.

Segue uma lista de algumas diferentes vertentes do movimento feminista e suas ideias:

Feminismo Liberal

Crédito: Cecilia Ramos

Sendo um dos mais antigos “feminismos”, a nomenclatura é relativamente nova e é através do feminismo liberal que a maioria das pessoas têm seu contato inicial com o movimento.

Esta é a variedade do feminismo que trabalha dentro da sociedade mainstream para integrar as mulheres nessa estrutura de forma individualista, que se concentra na capacidade das mulheres de manter a igualdade através de suas próprias ações e escolhas. Sua ênfase está em defender a igualdade entre os sexos através de reformas sociais e políticas e meios legais. As feministas liberais enfatizam a importância do indivíduo e acreditam que toda mulher pode afirmar seu lugar na sociedade e conquistar os direitos que ela merece.

A base do liberalismo deu ao feminismo liberal uma plataforma familiar o suficiente para que convencesse o público em geral e o governo de que suas filosofias feministas poderiam e deveriam ser incorporadas à lei existente. Alguns objetivos muito importantes dessa vertente são o direito ao aborto, o pagamento igual para homens e mulheres e os direitos educacionais. Este ramo do movimento inclina-se mais para a perspectiva da igualdade e procura provocar uma mudança no estado atual da sociedade e não uma revolução.

Críticos do feminismo liberal argumentam que suas suposições individualistas tornam difícil ver as maneiras pelas quais as estruturas e os valores sociais subjacentes prejudicam as mulheres. A concentração no indivíduo pode negligenciar a importância da comunidade e ainda se leva em consideração a crítica histórica do feminismo liberal que enfoca em seu passado racista, classista e heterossexista.

Nesse caminho, feministas de outras vertentes do movimento afirmam que o feminismo liberal mainstream reflete apenas os valores das mulheres brancas, heterossexuais e de classe média, e ignora em grande parte as mulheres de diferentes etnias, culturas ou classes. A ideia do feminismo liberal é baseada no privilégio branco e, muitas vezes, o feminismo liberal falha em reconhecer como as mulheres de outras etnias não têm voz quando se trata de como as mulheres sofrem desigualdade.

Naomi Woolf, escritora feminista estadunidense
Crédito: Foto de arquivo pessoal
Mary Wollstonecraft, escritora e filósofa inglesa do século XVIII
Crédito: Obra de John Opie – 1797

Feminismo Radical

Tradução: Primeira lição do Feminismo Radical: Libertando mulheres da opressão do patriarcado e da construção de gênero
Crédito: RadFem Chronicles

Embora muitos vejam o feminismo radical como um tipo indesejável do conceito, ele é, na verdade, responsável pelo desenvolvimento de muitos pensamentos, ideias e ações que, de outro modo, seriam evitados por outros tipos de feminismo. O feminismo radical leva o nome da palavra latina, que significa raiz. Nesse contexto, busca “ir à raiz” ou combater a “fonte do problema”.

Como um ramo específico, o feminismo radical adota o ponto de vista de que a sociedade, sob regras machistas, é necessariamente opressiva para as mulheres e que gênero é inteiramente uma construção social feita em benefício da hierarquia machista. Para as feministas radicais, a verdadeira igualdade entre os sexos só pode ser atingida derrubando as construções sociais de gênero, juntamente com o restante da estrutura de poder que mantém a desigualdade – ou seja, a sociedade como a conhecemos. Enquanto os paralelos são traçados entre a opressão das mulheres e a de outros grupos, o movimento vê a dominação sobre o gênero feminino como a forma mais fundamental de opressão, que ultrapassa as fronteiras de etnia, cultura e classe econômica.

As críticas ao feminismo radical são em grande parte sobre a ideia de irmandade que é imposta, pois esse ramo do movimento construiu seu campo sobre uma noção de ‘mulher’, de uma experiência universal para todas elas, tendo como a razão pela qual as mulheres são oprimidas as concepções de gênero criadas pela sociedade. Muitas críticas desse ponto de vista atentam ao fato de que o feminismo radical inicial frequentemente ignora as diferentes vivências das mulheres, porém o faz de forma contrária ao feminismo liberal, pois luta em comunidade, tratando todas as mulheres como uma.

Os críticos afirmam que as feministas radicais simplificam as questões e, portanto, tendem a sugerir que os homens são os vitimizadores e as mulheres, as vítimas. Dessa forma, correm o risco de fazer aos outros aquilo que não querem que façam para si mesmas e para outros grupos oprimidos.

Andrea Dworkin, feminista radical
estadunidense
Crédito: Stephen Parker
Dworkin em uma manifestação anti-pornográfica em Nova Orleans nos anos 80
Crédito: John Goetz
Catharine Mackinnon, jurista e ativista feminista estadunidense
Crédito: Gal Hermoni/Lady Globes Magazine

Feminismo Marxista e Socialista

Manifestação na Argentina
Crédito: Reprodução
Manifestação em São Paulo
Crédito: Reprodução

Marx era da opinião de que o sistema capitalista era o culpado pelas desigualdades enfrentadas pelas classes trabalhadoras e a remoção do sistema capitalista restauraria o equilíbrio social, o que acabaria reduzindo as desigualdades de gênero também. Essa é a atitude adotada pelo feminismo marxista ou socialista. Embora ambas as ramificações apresentem características únicas, de modo geral, juntam essas filosofias para alcançar a igualdade de gênero, tanto nas esferas profissionais quanto pessoais.

Esse ramo do feminismo acredita que o status oprimido das mulheres pode ser atribuído ao tratamento desigual tanto no local de trabalho como em casa. A exploração financeira e pessoal, a instituição do casamento, do parto e dos cuidados infantis, a prostituição e o trabalho doméstico, segundo as feministas socialistas e marxistas, são ferramentas para degradar as mulheres e o trabalho que elas fazem em uma sociedade dominada pelos homens.

O feminismo socialista e marxista frequentemente se considera uma subcategoria do feminismo radical, referindo-se a uma “raiz de todos os problemas” diferente, que é o sistema econômico. Porém, ao contrário das feministas radicais, as ativistas dessa vertente não acham que a dominação masculina seja a única ou principal fonte de desigualdade de gênero. Em vez disso, eles pensam que a opressão das mulheres decorre do fato de que elas são financeiramente dependentes dos homens na sociedade atual.

Silvia Federici; escritora, professora e ativista feminista italiana
Crédito: Reprodução
Sabrina Fernandes, socióloga, militante feminista ecossocialista e youtuber
Crédito: Reprodução

Ecofeminismo

Crédito: Franciele Arnold
Tradução: Nem a Terra nem as mulheres são territórios de conquista
Crédito: Reprodução

Quando se trata de danos ambientais e da saúde de nossos recursos naturais, há teorias que dizem que o gênero definitivamente desempenha um papel: em quem é afetado, quem pode fazer o que e como podemos avançar. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente coloca de forma bastante sucinta: “Em todo o mundo, as condições ambientais afetam as vidas de mulheres e homens de diferentes maneiras, como resultado das desigualdades existentes. Os papéis de gênero frequentemente criam diferenças nas maneiras como homens e mulheres agem em relação ao meio ambiente e às formas como homens e mulheres são capacitados ou impedidos de atuar como agentes de mudança ambiental”. É a partir desse conceito que nasce o ecofeminismo.

Essa corrente é, então, a combinação da ecologia e do feminismo, que reside na relação simbólica entre a opressão das mulheres e a destruição do meio ambiente. Na verdade, o movimento é um pouco filosófico e de natureza espiritual – e, portanto, tem sido alvo de críticas há muito tempo. O ecofeminismo acredita que a destruição do meio ambiente e a opressão das mulheres na sociedade estão simbolicamente relacionadas umas às outras. De acordo com essa teoria, assim como os homens controlam e destroem o ambiente para seu próprio benefício e prazer, eles controlam e oprimem as mulheres também, pelo mesmo motivo. O ecofeminismo defende que as mulheres devem tentar reduzir ao máximo a destruição do meio ambiente e criar e manter um ambiente saudável para reparar a injustiça social e ambiental.

Vandana Shiva; física indiana, ecofeminista e ativista ambiental
Crédito: Reprodução

Daniela Rosendo, ecofeminista, em palestra “Gênero, Educação e Direitos Humanos para uma sociedade sensível ao cuidado”
Crédito: Rodolfo Espínola/Agência AL

Feminismo Interseccional

Crédito: Salmon Design
Manifestação em São Paulo em 2018
Crédito: Reprodução

Diz-se que o movimento feminista de hoje corre o risco de perder o ímpeto, a menos que reconheça que nem toda feminista é branca, de classe média, cisgênero e com plena capacidade física e mental. Esta é a razão pela qual o feminismo interseccional tem ganhado força.

Interseccionalidade é um termo que foi cunhado pela professora americana Kimberlé Crenshaw, em 1989. O conceito já existia, mas ela colocou um nome para ele e a definição em seu livro diz: “A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas interseccionais da sociedade. Exemplos disso incluem: raça, gênero, classe, capacidades físicas/mentais e etnia”. Em outras palavras, certos grupos de mulheres são multifacetadas e diferem dependendo da vida com a qual precisam lidar. Não existe um tipo de feminismo de tamanho único para todos.

Embora o conceito de interseccionalidade no feminismo esteja presente há décadas, parece que ele só entrou em voga há poucos anos e muitas pessoas ainda estão confusas com o que isso significa. O seu principal objetivo é apontar que o feminismo – que é pode ser excessivamente excludente –, representa apenas uma visão e não reflete sobre as experiências de todas as mulheres. Dentro dele, podem existir outras correntes socialmente específicas, tais como feminismos negro, lésbico e trans. Mas, nem todas aquelas que pertencem a esses grupos se identificam com a interseccionalidade.

Segundo as pensadoras desse ramo, até que o movimento feminista dominante comece a ouvir os vários grupos de mulheres dentro dele, continuará estagnado e não será capaz de seguir em frente. O único resultado disso é que o movimento se tornará fragmentado e continuará a ser menos efetivo.

bell hooks, teórica feminista, artista e ativista social estadunidense
Crédito: Reprodução
Djamila Ribeiro, filósofa, feminista e acadêmica brasileira
Crédito: FRM

Produzido por:

  • Caroline Moreira, aspirante a jornalista, cursando o 9º semestre de Comunicação Social, feminista engajada, apaixonada por música, filmes e livros.
  • Fernanda Nunes, estudante do 9º semestre de Comunicação Social – Jornalismo, feminista, leitora incansável, gremista e apaixonada por séries, filmes e futebol.
  • Vitória Rocho, estudante do 9º semestre de Comunicação Social, futura jornalista e pesquisadora, marvete, musicófila, ativista LGBT+ e feminista.

Contato: desmistifica.feminismo@gmail.com

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