DaFeira: A invisibilidade dos negros na literatura e o desafio dos novos autores de cor

O regime de escravidão acabou em 1888, mas suas sequelas ainda são evidentes no Brasil, inclusive na literatura. Apenas em 2019, Machado de Assis, considerado o maior escritor de literatura brasileira, teve sua negritude evidenciada. O reconhecimento de negros na literatura atualmente continua sendo um ato de disputa, talvez semelhante à luta que Machado de Assis viveu a séculos atrás.

Segundo o jornalista e escritor Oscar Henrique Cardoso, os principais desafios dos escritores negros são as condições financeiras e o acesso à publicação. Segundo ele, o ingresso no mercado editorial tradicional e nas grandes editoras ainda é muito restrito. Mesmo com o destaque de autoras como a afro-portuguesa Grada Kilomba e seu livro “Memórias de Plantação”, que apresenta narrativas de mulheres da diáspora africana sobre o racismo e da filósofa Djamila Ribeiro com a obra “Lugar de fala”, ambos destaques na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), autores negros ainda têm dificuldade de acesso ao mercado editorial. Produzir um livro impresso no Brasil tem um valor elevado e existem pouquíssimos programas de incentivo para apoiar as novas produções.

Para Cardoso, a formação social, política, econômica e cultural do povo gaúcho é discriminatória no aspecto mais negativo pois não temos heróis negros na história formal gaúcha. “A História Gaúcha invisibiliza, sempre que pode, a presença do negro em sua constituição. Sempre que possível minimizando e inferiorizando este povo. Assim os autores negros sempre foram obrigados a trabalhar em um cenário de invisibilidade.” Disse ele.

Para o escritor, pensar em produções literárias negras é pensar e promover a igualdade e a justiça social, dando voz a um povo que contribui diretamente para a formação de nossa cidade, nosso estado e nosso país. “Ofertamos ao Brasil o Samba, a feijoada, ofertamos o empreendedorismo por esta característica que temos de nos virar, de transformar, mudar os rumos da vida profissional é uma característica africana. O churrasco de  domingo, aquela costela assada que comemos, é oferenda, comida de Ogum. Cultuamos os valores africanos constantemente em nosso dia a dia. Quem pode contar tudo isso somos nós os negros e negras. Também podemos não contar sobre isso, falar de outros temas. A nossa presença traz justiça e garante sim a promoção dos valores democráticos. Só há democracia onde há igualdade.” Relatou Oscar ao falar sobre o que a literatura negra pode trazer de benefícios para uma nação.

PERFIL DO ESCRITOR:

Nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 8 de dezembro de 1971, Oscar Henrique Marques Cardoso é formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e em Radialismo pela Fundação Padre Landell de Moura. Foi gerente de Comunicação na Fundação Cultural Palmares: Ministério da Cultura, em Brasília (DF) e atuou em diversas emissoras de rádio e tevê no Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, foi correspondente de agências de notícias e também atuou em editoras regionais. Estreou na literatura em 2010, com a novela “Nós”, lançado pela Editora 24 Horas, de São Paulo. É também autor dos títulos “Entre Louvores e Amores”, “Cuidado! Palavra Viva”, “Vó Cóia”, “A Pérola Mais Negra”, “Prosopopeia” e “Chico”. Também é o idealizador, editor e organizador das Coletâneas “Negras Palavras Gaúchas”e “Negras Palavras Gaúchas DOIS”. Foi patrono da Feira do Livro de Nova Santa Rita (RS), em 2015. Ocupa a cadeira número 87 na Academia de Letras do Brasil Seção Rio Grande do Sul, a qual tem como patrono o escritor e poeta Oliveira Silveira. Oscar Henrique Marques Cardoso já recebeu prêmios e condecorações por sua atuação na Literatura e também no campo da Igualdade Social e Racial, no Rio Grande do Sul e no Brasil.

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