“A sociedade poderia olhar para as pessoas trans com um olhar mais humanizado”

Suelen Ferreira Moraes, ativista e mulher trans, sabe a data certa de quando se identificou como feminista. “Foi por volta de 2013, quando as mídias começaram a debater mais sobre o assunto nas redes sociais”, lembra. Ela descobriu o Feminismo por meio da página Travesti Reflexiva no Facebook e tempos depois tornou-se administradora do grupo. “Foi ali que tive meus primeiros contatos com o Feminismo”, salienta. Após a descoberta, Suelen conta que começou a pesquisar e estudar sobre o Feminismo Trans, a fim de compreender a história por trás dessa vertente, no entanto, ainda não tinha muita aproximação com as diversas teorias de gênero existentes.

A estudante Suelen Moraes é ativista e luta pelas causas do Feminismo Trans
Crédito: Caroline Moreira

Suelen é natural de Cachoeira do Sul, acadêmica do curso de Serviço Social da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e atua em diversos projetos. A estudante destaca que começou a ter contato com militância e ativismo a partir do momento que se sentiu incomodada com as relações sociais, de poder e força, que existem diariamente na sociedade. “Eu comecei a me mobilizar, juntei pessoas e construí a primeira Conferência LGBT em Cachoeira do Sul, levei pessoas para a conferência estadual e elegemos também para a conferência nacional”, explica. O Coletivo LGBT que Suelen cita tem como objetivo promover a igualdade sexual e de gênero, orientar, instruir e debater sobre a temática para a população.

A ativista participou de articulações dentro do coletivo feminista que existe em Cachoeira do Sul e construiu também projetos em colaboração com o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e o Ministério Público. “É necessário se articular e realizar parcerias para levar conhecimentos e questões acerca do assunto para outras pessoas”, considera. Para ela, as demandas trans ainda são discutidas de forma muito invisível na sociedade. “Eu vejo poucas pessoas falando sobre o assunto, por isso, procuro meu lugar de fala, busco estudos, faço palestras e debates em rodas de amigos”, enfatiza a estudante.

Mas até ocupar um lugar de diálogo e tornar-se referência no assunto para tantas pessoas, Suelen precisou mobilizar-se para o processo de identificação. A estudante conta que desde criança se sentia diferente em relação às outras crianças de sua idade. Segundo Suelen, ela não representava o que a sociedade havia imposto de uma performatividade masculina. “A minha aceitação partiu através do empirismo, quando comecei a me auto entender ao ver pessoas como eu, pois até aquele momento não tinha noção do que eu era, pois era pouco debatido na mídia”, explica.

Desde então, a família e os amigos de Suelen sempre a apoiaram ao longo de sua trajetória. “Minha família e meus amigos são tudo para mim, sem eles eu não estaria onde estou e não teria conquistado o que almejava”, ressalta. No entanto, por falta de informação e preconceito, são frequentes os casos de trans agredidos e abandonados por familiares no Brasil. “Infelizmente nem todas as famílias aceitam e muitas ainda não estão preparadas por não saber o que é ser trans”, salienta. Além disso, o Brasil segue em primeiro lugar no ranking de assassinatos de transexuais.

A passos de formiga, como diz a jovem, a população trans vem conquistando seus direitos. Um caso aconteceu em 2018, quando a Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ) regulamentou a alteração de nome e gênero nos documentos de pessoas trans em todo o território brasileiro. “Eu tenho meus documentos retificados e sou reconhecida como uma mulher pelo Estado”, ressalta. Contudo, Suelen avalia que existem inúmeras reivindicações que abarcam diversas construções do que é ser mulher e de quais são os seus direitos. Cita ainda o conceito de interseccionalidade, cunhado por Kimberlé Williams Crenshaw, que trata das interações das minorias, entre as diversas estruturas de poder.

 “A maioria das pessoas que são Transfeministas se alocam junto do Feminismo Negro, pois a teoria da intereseccionalidade nasce também dentro do Feminismo Negro. Então, nos unimos para poder compreender essas questões, de como esses marcadores atravessam as pessoas e causam automaticamente subalternidade. Feministas intersecionais lutam contra a transfobia também, o direito pelo seu corpo, entre outras coisas. As reinvindicações são muito abrangentes e tentam abarcar a multiplicidade de sujeitos que existem na nossa sociedade”, ressalta.

Transfeminismo

Primeira Marcha do Orgulho Trans aconteceu em 1º de junho de 2018, em São Paulo
Crédito: NurPhoto via Getty Images

Segundo novos ideais e atitudes trazidos pelo movimento feminista, a percepção sobre o que é ser mulher se ampliou. A partir de vertentes pós-estruturalistas do Feminismo e do Feminismo Negro, surgiram ideias voltadas às questões do Feminismo Transgênero. Desta forma, essas vertentes passaram a abarcar a feminilidade de mulheres invisíveis aos olhos da sociedade como, por exemplo, as mulheres negras, pobres, lésbicas, bissexuais e as transexuais. O Transfeminismo critica a ideia de que somente as mulheres cisgêneros são mulheres e os homens cisgêneros são homens, excluindo desta forma as pessoas que não se enquadram neste discurso hegemônico, que elege a genitália como a única identidade.

No entanto, essa forma não prejudica apenas a população trans, mas também qualquer indivíduo que não se identifica em tal modelo. “Uma pessoa pode ser homem ou pode ser mulher sem necessariamente ter passado por uma cirurgia, ou pode ser quem ela quiser ser, não se resume apenas à genitália”, esclarece Suelen. A jovem menciona o feminismo radical, o qual surgiu na década de 60 e explica que o movimento é emancipatório, mas que não emancipa a diversidade de mulheres existentes. “É a partir daí que nasce a necessidade de se reivindicar recortes e de construir uma multiplicidade de sujeitos e de problematizar o que é ser mulher”, explica.

O Transfeminismo manifesta-se como uma forma de apoiar também a luta de todas as mulheres, sejam elas trans ou não. Sobre o protagonismo do movimento trans, a ativista e escritora Emi Koyama reflete em seu texto Manifesto Transfeminista: “O Transfeminismo não é sobre se apoderar de instituições feministas existentes. Ao contrário, é sobre ampliar e avançar o Feminismo como um todo através da nossa própria liberação e trabalho em coalizão com todas as outras pessoas. O Transfeminismo luta por mulheres trans e não trans, e pede às mulheres não trans para lutarem por mulheres trans também. Ele engloba políticas de coalização feminista nas quais mulheres com diferentes vivências e histórias lutam umas pelas outras, pois se não lutarmos umas pelas outras, ninguém irá”.

A estudante explica ainda que o conflito existente entre o Transfeminismo e o feminismo radical ocorre porque as feministas radicais acreditam que mulheres trans não podem ser consideradas mulheres. “Para elas, tudo advém da genitália, inclusive a socialização”, diz. Ou seja, ela surge como influenciadora de regras comportamentais que são impostas desde o nascimento do que é ser homem e do que é ser mulher na sociedade como, por exemplo, de que meninas usam rosa e meninos usam azul. “Quando começou a se debater transexualidade nos Estados Unidos, as feministas radicais se uniram aos conservadores e congressistas e lançaram diversos estudos sobre a transgeneridade para retirar direitos à saúde da população trans”, pontua. Suelen diz que esses direitos foram novamente concedidos aos transexuais no governo do ex-presidente Barack Obama. No entanto, Trump assinou decreto em 2017 eliminando os planos sobre os direitos dos LGBT. No Brasil, em janeiro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro assinou a Medida Provisória 870, que não menciona a população LGBT das políticas e diretrizes do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Com todos estes avanços em conhecimentos e assuntos acerca da transexualidade, Suelen tem bem nítido quem ela é e do papel que exerce na sociedade. “O que eu sou não me incomoda, se me incomodasse eu não estaria aqui”, ressalta. Em relação aos estereótipos impostos por grupos sociais, a estudante acredita na mudança de perspectiva. “A sociedade poderia olhar para as pessoas trans com um olhar mais humanizado”, pondera. Para as pessoas que estão passando por esse processo de aceitação, Suelen destaca a importância do estudo e de muita leitura. “Seja combativa”, aconselha. E deixa uma mensagem para as pessoas que estão passando por essa mudança. “Eu sempre digo para não desistir fácil, algumas coisas vão acontecer durante o percurso. Seja você, pois, ser você, ser a verdade é a melhor coisa que existe”.

Participantes seguram a bandeira do Orgulho Trans durante manifestação em São Paulo
Crédito: NurPhoto via Getty Images

Produzido por:

  • Caroline Moreira, aspirante a jornalista, cursando o 9º semestre de Comunicação Social, feminista engajada, apaixonada por música, filmes e livros.
  • Fernanda Nunes, estudante do 9º semestre de Comunicação Social – Jornalismo, feminista, leitora incansável, gremista e apaixonada por séries, filmes e futebol.
  • Vitória Rocho, estudante do 9º semestre de Comunicação Social, futura jornalista e pesquisadora, marvete, musicófila, ativista LGBT+ e feminista.

Contato: desmistifica.feminismo@gmail.com

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