7 coisas que os meninos aprendem que perpetuam a masculinidade tóxica

“Tóxico” foi a Palavra do Ano do Dicionário Oxford em 2018, selecionada por refletir “o ethos, o humor ou as preocupações do ano que passou e ter potencial duradouro como um termo de significado cultural”. Uma das razões para a popularidade repentina da palavra foi, e continua sendo, o uso da expressão “masculinidade tóxica”. No anúncio, Oxford relata que “depois de ‘química’, ‘masculinidade’ foi a palavra mais usada em conjunto com ‘tóxico’” no ano de 2018. Com o movimento #MeToo colocando sob o holofote o tema dentro da indústrias do entretenimento e eventos políticos divisores como a audiência do comitê judiciário de Brett Kavanaugh no Senado provocando o debate internacional, o termo masculinidade tóxica criou raízes na consciência pública e fez com que as pessoas conversassem”.

Mas afinal, o que é masculinidade tóxica? Para a advogada e pesquisadora Nicole Weber, ela “se dá quando diz que o menino não chora, que o menino não brinca de tal coisa, que menino não usa tal coisa. Ela vai ceifar a criatividade daquela pessoa, vai deixar, várias vezes, que ele não reconheça quem ele realmente é e que não possa alargar a sua potencialidade. Tudo porque já existe uma norma concreta que diz o que é masculino e o que é feminino”.

Para entender um pouco mais sobre o assunto, listamos exemplos do que homens e mulheres aprendem quando crianças e, muitas vezes, continuam a perpetuar depois de adultos:

Sexo é binário

A ideia de que existem apenas dois gêneros, cada um com modos de comportamento únicos e muito específicos – como vestimenta, fala, expressão sexual e romântica – é tão irreal quanto prejudicial. Ao mesmo tempo em que é afirmado que a identidade de gênero é a questão mais importante da vida de um indivíduo, também é pregado que ela corresponde exclusivamente à nossa genitália.

O problema com isso é que essas ideias de gênero não são histórica ou culturalmente fixas e, mesmo dentro de um tempo e lugar fixos, há muitas pessoas que não se encaixam e/ou não desejam se adequar em cada linha do roteiro de gênero que elas receberam. Quando se ensina a uma criança que o sexo prescrito é quem ela é, faz com que ela seja posta em conflito consigo mesma quando se deparar com uma realidade múltipla.

 Tradução: “O que eu faço? Eu não caibo na caixa” 
“Caixa de gênero”
Crédito: Lindsay Penn

Há coisas de menina e coisas de menino… e as coisas de menina são consideradas piores

Graças ao sistema binário de gênero, “homens” e “mulheres” são divididos em linhas bem estritas: hobbies, atividades, roupas, até mesmo cores e temas na escola. Ainda que as meninas sejam frequentemente afastadas dos interesses “masculinos”, como carros, futebol, calças, a cor azul, etc., geralmente não é com tanto vigor que os garotos são forçados a se afastar de interesses “femininos”.

Se uma garota quer usar uma “camiseta de menino” fora de casa, por exemplo, é menos provável que seja visto como algo preocupante do que se um menino quisesse usar uma saia na escola. Se uma garota quer fazer karatê, geralmente é mais aceita do que um garoto fazendo balé. A questão é: por quê?

Se você quer insultar um garoto, feminize-o

Mais uma vez, na estrutura binária, a feminilidade aparece como um rebaixamento. A masculinidade tóxica, aberta e implicitamente, afirma a superioridade dos homens ao proclamar a inferioridade de mulheres e meninas diariamente. Quando elas assumem traços do que é tido como comportamento masculino é compreensível, porém, para os rapazes é inaceitável que aconteça o reverso. E como prova, existe uma vasta gama de insultos dirigidos aos homens que refere à feminilidade ou ao sexo feminino, até frases como “Está parecendo uma menininha”. E mesmo pejorativos como ‘bastardo’ ou ‘filho da mãe’ estão, realmente, manchando a “honra” de uma mulher ao invés do homem em questão diretamente. Um menino, desde cedo, é ensinado a sentir vergonha se estiver associado à feminilidade.

Tradução: “Eu pareço com uma vadia?”
Crédito: Giphy/Pulp Fiction

Homofobia e afetividade entre os homens

A identidade de gênero e a sexualidade estão intimamente ligadas à nossa cultura e ser um “homem” significa ser heterossexual, enquanto a masculinidade tóxica dita que os gays são feminizados, eles sendo ou não. Muitas pessoas ouvem a palavra “gay” usada como um insulto muito antes de saberem o seu real significado, o que gera conotações negativas ligadas a ela que – ainda que irreais – tornam-se difíceis de desconstruir.

Como a homofobia está tão profundamente arraigada na masculinidade tóxica, aprende-se desde cedo que até mesmo a aparência da homossexualidade deve ser evitada a todo custo. Os meninos são encorajados a não demonstrar carinho físico e, quanto mais velhos ficam, mais fortes se tornam esses tabus.

Tradução: “Ei! Pare! Isso é gay! Pare com isso!”
Crédito: Giphy/Kevin Hart: E Agora?

Os homens devem ser fisicamente resistentes… E não evitar de resolver disputas por meio da violência

Por alguma razão isso é tremendamente importante dentro do reino da masculinidade tóxica. Os rapazes devem ser fisicamente impressionantes, não predominantemente com o propósito de serem sexualmente atraentes – embora seja melhor se você obedecer a um padrão específico de beleza masculina -, mas para que possam intimidar as pessoas.

Quantos garotos ouvem: “Não comece brigas, mas se alguém começar algo com você, você revida”. Certamente há um tempo e espaço para a autodefesa, mas, muitas vezes, isso não acontece para defender a integridade física, mas para defender uma “reputação como homem”.

Tradução: “Nós vamos brigar aqui e agora!”
Crédito: Giphy/Se Brincar O Bicho Morde

Os homens devem ser estoicos… A menos que eles estejam com raiva

Os meninos são encorajados, mais cedo e mais enfaticamente do que as meninas, a serem mais reservados emocionalmente. “Não chore” é, no sentido emocional, sinônimo de “homem”. Os meninos devem suprimir suas emoções, boas e más, exceto por uma: a raiva. Em um mundo de masculinidade tóxica, é basicamente a única emoção aceitável que eles podem ter, o que, muitas vezes, é traduzido em comportamentos e atitudes agressivas e violentas.

Os homens devem ser completamente autossuficientes

Enquanto as mulheres são socializadas para serem dependentes, tanto dos homens quanto umas das outras, por apoio físico, financeiro e emocional, homens e meninos internalizam o personagem de “homem da casa”. A cultura ocidental também tem uma longa história de promover a independência e o mito de um homem que se fez sozinho como sendo o auge do sucesso e do prestígio. Isso pode levar a sentimentos profundos de isolamento, insegurança e extrema relutância em procurar ajuda, particularmente no campo da saúde mental. Junte tudo isso com o fato de que os homens ficaram com uma emoção – a raiva – em seu arsenal e, bem, há uma razão pela qual esses exemplos de masculinidade são tão tóxicos.

Tradução: “Eu vou fazer isso sozinho”
Crédito: Giphy/8 Mile – Rua das ilusões

Abaixo, exemplos de frases que perpetuam a masculinidade tóxica:

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Produzido por:

  • Caroline Moreira, aspirante a jornalista, cursando o 9º semestre de Comunicação Social, feminista engajada, apaixonada por música, filmes e livros.
  • Fernanda Nunes, estudante do 9º semestre de Comunicação Social – Jornalismo, feminista, leitora incansável, gremista e apaixonada por séries, filmes e futebol.
  • Vitória Rocho, estudante do 9º semestre de Comunicação Social, futura jornalista e pesquisadora, marvete, musicófila, ativista LGBT+ e feminista.

Contato: desmistifica.feminismo@gmail.com

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