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Um louco sonhador agitando o mundo cultural

No município de Venâncio Aires, um jovem negro e seu grupo têm agitado o mundo cultural, produzindo peças teatrais, longas-metragens e, principalmente, levando a estudantes de várias escolas do Rio Grande do Sul e até de outros estados, um projeto de prevenção às drogas.
Sérgio Rosa, natural de Vila Arlindo, interior de Venâncio Aires, desde cedo já participava de peças teatrais e eventos culturais. Depois dos 15 anos, passou a fazer parte da Pastoral da Juventude e de vários movimentos sociais, nos quais a cultura era considerada um mecanismo de transformação.
Em 2007, Sérgio recebeu o convite para produzir um espetáculo cênico na Sociedade Négo, de Venâncio Aires, e montou o musical “Negras – Um toque feminino na História”, contando com a participação de cerca de 40 pessoas, muitas das quais nunca tinham sequer assistido a uma peça de teatro. Após três meses de ensaio, o musical foi apresentado para um público superior a 250 pessoas, emocionando a todos.
A partir daquele momento, Sérgio foi convidado a continuar produzindo peças teatrais, fez contato com algumas pessoas e, em fevereiro de 2008, criou o grupo teatral Cia. Afro-Cena, formado basicamente por atores negros.
Nos primeiros três anos, o grupo trabalhou em diversas peças. Com o longa “A Idade da Pedra”, produzido em 2010, o grupo promove sessões comentadas sobre as drogas. Em 2011, a Afro-Cena foi oficializada como Companhia Cultural, tendo tido sua documentação regularizada, o que viabilizou as parcerias com prefeituras e demais instituições. Foi também nesse ano que o grupo começou a trabalhar essencialmente a cultura negra.
Atualmente, eles têm viajado por diferentes cidades, com uma peça de teatro sobre a importância do livro e da leitura chamada “Papelito, Em Busca De Uma Boa Leitura”, além de viajar com a comédia “T ao Quadrado” e a peça “Abayomi, O Grande Encontro”.
Desde 2010, o Troféu Afro-Cena, criado pelo grupo, é entregue para um agente cultural de Venâncio Aires. Há dois anos também vem sendo desenvolvida no município a Semana Afro-Cena, durante a qual são realizadas atividades culturais em diferentes espaços, como mostras fotográficas e de artes plásticas, além de serem promovidas palestras sobre temas variados, em escolas e outras instituições.
Em 2011 foi lançado pela Cia. o livro “Cultura: apropriações e conjugações em diferentes modos e tempos”, que contou com a participação de 24 pessoas de Venâncio Aires e teve o prefácio assinado pelo escritor e atual Secretário de Estado da Cultura, Luiz Antônio de Assis Brasil.
Ao longo de quase cinco anos de Afro-Cena, já foram apresentadas várias peças teatrais, foram produzidos três filmes e tem sido desenvolvido nas escolas de várias cidades o projeto de prevenção às drogas que já atingiu mais de 23 mil pessoas em 107 escolas, públicas e particulares, de mais de 30 cidades, do RS, SC e RJ.
A Afro-Cena é uma instituição independente, que não recebe o apoio do poder público e precisa buscar patrocínios junto a comerciantes do município de Venâncio Aires e, muitas vezes, tirar dinheiro do próprio bolso de seus integrantes para cobrir as despesas e investir em novos projetos.
Segundo Sérgio Rosa, o tema “prevenção às drogas” é tão presente nas atividades desenvolvidas pelo grupo por ser de fundamental importância, pois a cultura é um grande e importante mecanismo para inviabilizar o acesso das crianças, adolescentes e jovens ao mundo das drogas. Hoje se investe milhões em tratamento e repressão, mas muito pouco em prevenção.

FILMES
- 360 (2011) – um média de 27 minutos que aborda o ciclo vicioso das drogas
- A Idade da Pedra (2010) – um longa de 102 minutos que aborda as diferentes formas que a sociedade é atingida pelo mundo das drogas
- Um Sorriso Negro (2011) – um curta de 14 minutos que aborda a importância da cultura negra.

Sérgio Rosa e Rosana Pinheiro apresentando o esquete “Papelito, em busca de uma boa leitura” (Arquivo pessoal)

PEÇAS DE TEATRO
- Velhos Não – Melhor Idade
- A Grande Visita
- Busão
- Um Sorriso Negro
- Filho de Deus
- Dia de Páscoa
- Cantando e Encantando o Amor
- Papelito, em busca de uma boa leitura
- T ao Quadrado
- Abayomi, o grande encontro

Sérgio se descreve como “um louco sonhador” (Arquivo pessoal)

 

 

 

BATE-PAPO COM SÉRGIO ROSA


- Por que você decidiu investir na cultura e como você se descreve?
SÉRGIO: Devido ao poder que a prática da cultura tem, de sensibilizar e resgatar a autoestima das pessoas. Certamente, se não fosse pela cultura, hoje muitas coisas e espaços que conquistei, eu não teria conquistado. Talvez ainda estivesse trabalhando na roça e em chão de fábricas, nas fumageiras. Eu me descrevo como ‘Um Louco Sonhador’ porque, de fato, é isso que sou. É esse o meu grande dom, e é a única coisa que ninguém irá conseguir me tirar. Sou um sonhador sim, porém não sou vulnerável.
- Por que foi escolhido o nome Afro-Cena para o grupo que criaste?
SÉRGIO: Porque queríamos fazer um nome afro ecoar e estar inserido em diferentes espaços, abordando diferentes temas. Hoje somos um grupo de agitadores culturais negros, mas já tivemos não negros integrados ao grupo.
- O grupo só trabalha a cultura negra?
SÉRGIO: Ficamos um ciclo de três anos sem trabalhar nada ligado à cultura negra, pois queríamos mostrar para as pessoas que éramos capazes de desenvolver qualquer tipo de projeto, bastando pesquisar, estudar, analisar, planejar, projetar, sonhar e buscar concretizar. A partir de 2011, depois de termos conquistado vários espaços, resolvemos começar a ocupar os espaços com a nossa cultura também. Aí iniciamos um ciclo onde a cultura negra, a nossa cultura referência, também passou a fazer parte.
- Quem são e o que fazem os integrantes da Afro-Cena?
SÉRGIO: Eu, que trabalho atualmente só com teatro e palestras; Adriano Conceição – autônomo; Ana Laura Rosa – estudante do ensino médio e funcionária de um supermercado; Alexsandra Alves – secretária numa empresa em São Leopoldo; Jaqueline Gonçalves – madrinha de bateria numa escola de samba, oficineira numa oficina de dança afro e secretária numa clínica em São Leopoldo; e Rosana Pinheiro – universitária em Biomedicina e funcionária de uma loja.
- Por que você acha que o grupo não recebe o apoio do poder público?
SÉRGIO: Infelizmente nossos políticos não têm interesse em investir em projetos nos quais os resultados aparecem em longo prazo, pois inviabiliza a barganha por votos e investir no fazer cultura, que possibilita a prevenção ao uso de drogas, é investir em projeto em longo prazo. E para nós, da Afro-Cena, é importante investir nesses projetos, e em maio do ano que vem completamos cinco anos de prevenção às drogas, tendo começado muito antes do “Crack Nem Pensar”. Nosso projeto tem reconhecimento nacional, já levamos nossas sessões comentadas, com os filmes, para cidades do RS, SC e RJ, e já recebemos pedidos de cópias dos filmes de profissionais da educação, judiciário, polícias civil, militar e federal, psicólogos, psicopedagogos, saúde, de cidades de todos os estados brasileiros. Fomos a segunda matéria sobre prevenção às drogas publicada no site do Conselho Nacional dos Municípios, tivemos matérias publicadas em duas revistas de São Paulo, específicas da temática drogas, e numa outra sobre negritude, mas que abordou o nosso trabalho sobre drogas, além de matérias no site da campanha Crack Nem Pensar e em jornais de nossa região e da Capital.

Reportagem: Augusto Dalpiaz, Luís Gustavo Oliveira e Antônio Madeira

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