A Rua Gaspar Silveira Martins, no Centro de Santa Cruz do Sul, já foi chamada de Rua da Gelada, por ter recebido a primeira geladeira da região. Poucos conhecem a história que inspirou uma marca de referência na cidade
Reportagem > Pedro Garcia | Fotografia > Luana BackesDois motivos levavam o jovem agricultor Pedro Kirst a se deslocar a cavalo todas as semanas de Linha Áustria, localidade onde vivia, até a zona urbana de Santa Cruz do Sul, naquela terceira década do século passado. Um deles era ensaiar junto ao Coro Santa Cecília. O outro, provavelmente o principal, era encontrar Olinda, namorada e logo depois, esposa.
Em 1928, ano em que o casal abriu as portas do empreendimento que os sustentaria por toda a vida, Santa Cruz do Sul ainda não tinha um cartão postal. A imponente Catedral São João Batista, por meio da qual a cidade firmou-se simbolicamente como uma das mais importantes do Sul do Brasil, só começaria a ser erguida no ano seguinte. À época, era tão pequena que até seu nome era menor. Chamava-se simplesmente Santa Cruz e comemorava pouco mais de duas décadas desde que fora efetivamente elevada à categoria de "cidade", livrando-se da incômoda posição de "vila" anexa à hoje vizinha Rio Pardo. A zona urbana era quase um quintal, ocupado por seis mil pessoas, todas conhecidas de todas. A esmagadora maioria da população, constituída principalmente por ruralistas, vivia nas localidades periféricas.

Depois de deixar o interior e a vida no campo, Pedro e Olinda escolheram, para iniciar o novo negócio, a casa de número 1332, na rua Gaspar Silveira Martins, que atravessa a região central da cidade de ponta a ponta e atualmente é uma das mais movimentadas. Sem calçamento, a rua era então ocupada por cavalos e carroças, além dos grupos de crianças que ali brincavam despreocupadas em meio à poeira. Aparentemente pequena, mas bastante espaçosa, a casa serviu também como residência do casal e dos três filhos que nasceriam na sequência, Elyta, Gladys e Telmo. A família vivia nos fundos e o empório foi montado na parte da frente.
Embora nunca tenha recebido um letreiro que o identificasse como tal, o local foi batizado Secos e Molhados, bem como são conhecidos os estabelecimentos comerciais que oferecem uma grande variedade de itens – também chamados de bazares ou armazéns. A vizinhança que passou a frequentar o lugar encontrava o que ao mesmo tempo era mercado e bodega. Ao fundo, ficavam as prateleiras com vidros de schimmier e outros produtos. Em um canto, estavam os armários com embutidos. No chão, ficavam as sacas com arroz, feijão, café e ervas. Na parte de baixo e atrás do balcão de mármore, as bebidas. Em cima dele, uma balança e um pote de balas com tampa redonda.

Ao centro, uma mesa grande ao redor da qual os homens da redondeza sentavam, principalmente antes do meio-dia e à tardinha, para conversar, jogar carpeta e beber uísque, conhaque, cachaça e cerveja. Nos finais de semana, a movimentação se estendia até a madrugada. "Quando chegavam para beber, meu pai pedia que as crianças se recolhessem", lembra Gladys, a filha do meio, que, junto da irmã mais velha e do caçula, que nasceria alguns anos depois, passava os dias circulando pelo local e ajudando os pais.
Foi por volta de 1940 que Pedro e Olinda fizeram um investimento que não apenas expandiria o negócio como tornaria folclórica aquela rua por vários anos. Compraram da loja Becker Irmãos, alocada em espaço onde atualmente funciona um grande supermercado na Tenente Coronel Brito, uma moderníssima geladeira comercial a querosene da extinta marca Steigleder (do tipo que hoje só se encontra em leilões e mercados de pulgas). Logo, a geladeira se tornou atração naquela parte do bairro onde aparelhos como aquele ainda não existiam – em toda a cidade, eram poucas as casas e lojas que já contavam com uma. No dia em que a geringonça foi entregue, as crianças da rua mal conseguiam esconder a euforia.
Toda branca, com quase dois metros de altura, puxadores niquelados e oito portas, quatro em cima e quatro em baixo, a geladeira tornou o Secos e Molhados ainda mais popular. Os pequenos arranjaram mais um motivo para rondar a loja o tempo inteiro: queriam picolés. Pedro, que era conhecido pela boa vontade com que tratava os clientes (acostumado, inclusive, a vender fiado para todos), não se incomodava de emprestar espaço para que os vizinhos pudessem deixar nela suas coisas a gelar. A não ser quando enchia a tal ponto que faltava espaço para os utensílios da própria casa. "Daí ele reclamava, mas mesmo assim, não sabia dizer não", conta Gladys. "Era uma pessoa muito bondosa."
Porém, o grande diferencial que o investimento concedeu ao local foi a possibilidade de servir aos clientes, bebidas de fato geladas. Até então, o mais perto que se conseguia chegar era colocando as garrafas no gelo em tachos improvisados com tijolos, deixando-as no chão dos porões das casas, ou dentro de baldes suspensos no fundo de poços d'água, sem muito sucesso. "É claro que não gelava, só saía sem o rótulo", ri Gladys. Com a geladeira, a bodega e a rua viraram referência para toda a região, inclusive para as crianças que faziam de tudo por uma Gasosa Limão ou outros refrescos da época.

O título não-oficial de Rua da Gelada perduraria por algumas décadas, bem como a fama do local. Arlindo Agnes mudou-se para a Gaspar em 1967, quando foi contratado como auxiliar de serviços gerais no estádio do Futebol Clube Santa Cruz, distante apenas alguns metros da casa. Instalado ali mesmo com a esposa Iracema, acompanhou por 30 anos a rotina dos jogadores. "Quando acabavam os treinos, eles diziam 'vamos tomar uma gelada' e corriam para lá", conta.
De trás do balcão do Secos e Molhados, Pedro e Olinda assistiram ao crescimento de Santa Cruz do Sul. Em fins dos anos 70, a população da cidade já chegava aos 50 mil, e pela primeira vez era maior do que a da zona rural. As ruas já tinham calçamento e o número de estabelecimentos semelhantes – e, consequentemente, de geladeiras – era bem maior. Por isso que em 1976, Pedro decidiu largar o negócio e se aposentar.
O empório foi vendido e seguiu funcionando como tal até 2004, exatos vinte anos depois de Pedro ter falecido, vítima de um derrame. A casa, então, retornou à família e segue hoje alugada pelo filho mais novo, Telmo, que já foi deputado e atualmente dirige uma grande empresa controlada pelo governo gaúcho. Repaginada, com nova pintura, passa a maior parte do tempo com as portas fechadas, quando não é utilizada como comitê de campanhas eleitorais. Da geladeira, nenhum deles tem notícias. "Ainda esses dias perguntei para a minha irmã 'onde andará a geladeira?'", diz Gladys.

Gelada, Gellada, Geladinha
A maior parte das milhares de pessoas que transitam diariamente pela Gaspar Silveira Martins não imagina que a rua já foi conhecida em toda a cidade como Rua da Gelada – e muito menos o por quê. Uma pista, no entanto, está escondida no letreiro de um frequentadíssimo supermercado que funciona quase em frente à antiga casa dos Kirst. O Super Gellada não se chama assim por acaso.
Em 1994, quando Nestor Schütz abandonou o ofício de cabeleireiro, após 25 anos, e mudou-se de Linha Nova para Santa Cruz com a esposa e o filho, decidido a empreender, descobriu a velha alcunha da rua onde se instalou e sua história. Imediatamente, decidiu que o seu negócio levaria aquele nome – o "l" foi duplicado por orientação de um numerologista. A marca tornou-se tão conhecida que nem adiantou batizar de Schütz o restaurante anexo que a família abriu há cinco anos: os clientes insistem em chamá-lo de Gellada. "Meu filho não gostou quando decidi colocar o nome do mercado assim", conta Nestor. "Ele achava feio e a história boba, mas hoje todo mundo chama ele de Gelada e a mulher dele de Geladinha."