Revista DaFeira – “A indignação é um motor fundamental para fazer humor”, diz Santiago

Esta publicação abre a série de reportagens produzidas para a Revista DaFeira, elaborada pelos alunos e professores do Curso de Comunicação Social da Unisc para a 31ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul. Acompanhando a temática da Feira – “Ler é uma aventura”, com foco em quadrinhos -, a proposta do material é ser atrativo, leve e instigar a leitura em diferentes públicos. Acompanhe a série de publicações online e, assim como nos quadrinhos, se deixe levar pela aventura da leitura!


ENTREVISTA COM O PATRONO. Com senso crítico, o cartunista, chargista e quadrinista falou sobre a carreira e demonstrou preocupação com as profissões.

Patrono da 31ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul, Neltair Rebés Abreu, o Santiago.

“Sempre achei que o desenho teria que ser a minha saída”. É com esta frase que o Patrono da 31ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul traduz a escolha pela profissão de cartunista, chargista e quadrinista. Embora se defina apenas como desenhista de humor, Neltair Rebés Abreu, o Santiago, acumula causos e histórias que geraram inúmeros trabalhos em diversos formatos. Todas as produções contribuíram – e continuam acrescentando – para que a generosa trajetória fosse feita à mão. O menino de apenas 8 anos que rascunhava alguns traços com base em revistinhas da Disney durante a infância, hoje, aos 67, carrega o nome da cidade de origem e uma premiada bagagem, estruturada com olhar aguçado, criatividade e autenticidade.

Ainda que a história profissional de Santiago tenha sido sempre direcionada às ilustrações, o quadrinista se aproximou muito de duas áreas: Arquitetura e Artes Plásticas. A incerteza de conseguir viver de quadrinhos fez com que Abreu ingressasse no curso em uma universidade de Porto Alegre. “Eu comecei a imaginar, depois de adulto, que quadrinhos, cartum, não seria possível viver disso. Aí fui para Arquitetura”, relata. Em seguida, começou a propagar suas obras em jornais e percebeu que poderia se sustentar com o desenho, quando acabou abandonando a primeira chance de formação. Já a segunda matrícula, em Artes Plásticas, foi iniciada depois do profissional já possuir publicações em jornais, e hoje a desistência é recordada com lamento. “Foi um arrependimento grande. Devia ter cursado Artes Plásticas até o fim”. Apesar disso, Santiago possui propriedade e competência inquestionáveis que o permitem afirmar com tranquilidade: “Eu sou autodidata. Me autoformei em desenho.”

A opção de fazer carreira como desenhista foi esboçada por afinidade e talento, mas foi o reconhecimento que impulsionou Santiago a seguir no caminho da literatura de elementos visuais, depois de abandonar os cursos na Capital Gaúcha. “Quando comecei a trabalhar na Folha da Tarde e ganhei um prêmio importante no Japão, eu senti segurança e pensei que aquilo ali poderia ser realmente uma profissão”, descreve. Mesmo premiado internacionalmente, o desenhista continuou com dúvidas sobre futuro, sentindo a necessidade de mais afirmações para ter certeza de que não precisaria buscar outras ocupações. “Depois ganhei outros prêmios internacionais, como no salão do Japão, Canadá, Alemanha e Turquia. E aí realmente eu me senti seguro”, aponta.

Apesar de ter construído uma carreira sólida e acreditar no potencial para o surgimento de novos talentos, Abreu revela que o contexto mudou, e o cenário para os profissionais de desenho não é dos melhores. “Hoje eu estou vendo já com grande preocupação a nossa profissão de desenhista de humor, porque o que nos sustentava eram jornais, revistas e livros. E desses aí só o que está restando hoje é livro”, destaca. Com amor pelos quadrinhos, o experiente ilustrador demonstra que a aventura na vida real pode ser preocupante. “Do ponto de vista profissional, se eu estivesse começando hoje eu estaria muito em dúvida sobre como ganhar a vida. Não estou vendo uma janela profissional”, e aproxima a atualidade com épocas passadas. “Até a minha idade de 60 e aposentadoria pelo INSS, eu consegui viver de desenho, mas eu não estou vendo como que a nova geração vai conseguir viver de desenho como eu sobrevivi”, evidencia.

Ao relembrar os passos iniciais e desafios enfrentados, Abreu expõe ideias fortes sobre a atualidade e profissão, principalmente sobre novas tecnologias. “Eu vejo a internet, o Facebook, nos explorando, essa ferramenta explora o trabalho das pessoas criativas. É uma denúncia que eu faço”. Outro ponto que incomoda o desenhista é a falta de monetização das produções que são publicados na rede.“Para mim, na minha profissão e na minha carreira, eu considero uma involução voltar a fazer desenhos gratuitamente na internet como um amador” e completa questionando “é ótimo consumir as coisas de graça, mas o artista vai viver do quê?”.

O que significa para Santiago ser escolhido o Patrono da 31ª Feira do Livro?

“Eu tento não ser movido pela vaidade pessoal. Essas coisas assim podem esticar muito a vaidade pessoal, e quero sempre que isso seja visto como uma valorização para nossa profissão. Da nossa arte, mais do que da profissão. Se a nossa arte é valorizada a ponto de a gente ser homenageado em Feira do Livro, é porque conseguimos um grande progresso em relação a isso. E é a batalha que eu faço para que a gente entre no conteúdo da literatura, com a nossa forma de comunicação, que é o quadrinho, o humor. Que é literatura junto com elementos visuais. Comunicação Visual e Literária. Eu fico feliz que mais do que essa homenagem pessoal a mim, é uma homenagem a nossa profissão.”


Em algumas produções de antigos humoristas, ou mesmo de novos que se aventuram no campo da comédia, não é difícil encontrar materiais preconceituosos ou mesmo discriminatórios. Para o renomado desenhista de humor no país, Santiago, o objeto de trabalho de um profissional quadrinista é a crítica aos opressores, sejam pessoas ou sistemas. “Não é mais tempo de as pessoas debocharem do negro, do deficiente físico, do homossexual, da mulher de forma machista. Acho que isso já não cabe mais.” O Patrono ainda transparece que os profissionais que trabalham com foco em uma sociedade igualitária acabam “se impulsionando pela esperança que haja consequências daquilo que a gente faz, que a gente mude alguma coisa. Então a gente acha que vai ter efeito criticando a hipocrisia”


“A indignação é um motor fundamental para fazer humor, principalmente humor político”. Amante da MPB, ao longo de toda a entrevista o Patrono fez questão de citar temas que, segundo ele, merecem ser combatidos; como o crescimento da direita, do fascismo, do nazismo e preconceitos de modo geral. Para o desenhista, o humor seria a melhor ferramenta possível para interromper um retrocesso de opiniões vivido no país. Pode-se dizer que com suas convicções e todo o seu talento, Neltair Rebés Abreu, o Santiago, almeja, adaptando o som ‘Nu com a minha música’, de Caetano Veloso, cores fortes e traços claros pro meu Brasil, apesar da dor.

Texto: Fernando Uhlmann

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *