Tariq: “O trabalho do correspondente sofre pressão em regiões conturbadas”

Na noite de quarta-feira, 22, a programação da 19ª Semana Acadêmica de Comunicação Social (Seacom) voltou-se para a habilitação de Jornalismo, com a palestra do correspondente da BBC World Service e BBC Brasil no Oriente Médio, Tariq Saleh. Natural da cidade de Beirute, no Líbano, Saleh foi criado em Sapiranga, no Rio Grande do Sul. Durante a palestra, o jornalista contou sobre sua rotina e experiências como correspondente em áreas de conflito. Antes do evento, Saleh conversou com a A4- Agência Experimental e a entrevista na íntegra você pode conferir abaixo.

Andressa Bandeira: Tu acreditas que conflitos como os que existem no Oriente Médio podem acabar?

Tariq Saleh: Isso é muito complicado dizer. A questão do Oriente Médio, a geopolítica lá, não é apenas um conflito. Ele é um emaranhado de conflitos que ora está mais em voga, ora estão mais dormentes. Então é muito comum lá, de tempos em tempos, um certo conflito estar em evidência e outros não, mas depois eles voltam a estar em evidência. Então, por exemplo, um conflito histórico como o israelense/palestino – ele agora, com a guerra civil na Síria e toda essa primavera árabe, ficou meio que esquecido; embora haja conversações aqui e ali, processos de “paz”, entre aspas. Porque há questões maiores ou mais complexas do que simplesmente “ó, existe conflito aqui, israelense/palestino”. Existe o conflito na Síria, existe a luta por democracia no Egito, a consolidação do estado na Líbia, enfim.  O próprio Iraque é um conflito que não terminou. As tropas americanas saíram do Iraque, caíram no esquecimento, ninguém mais fala tanto no Iraque, mas eles estão lutando lá para consolidar a democracia. Mas há muitos problemas, inclusive um perigo de volta de guerra civil no Iraque. Ou seja, de repente soluciona um conflito aqui, estoura outro ali. O Oriente Médio não tem um conflito homogêneo, ele tem vários problemas institucionais, políticos, geopolíticos, problemas sectários, e estamos falando de problemas que não são de dez anos atrás. São problemas de 700 anos, mil anos, que dormem, ficam calmos e daqui a pouco voltam de novo. A questão de espaço e tempo no Oriente Médio é insignificante. Há questões mal resolvidas de séculos e que, de repente, vêm à tona.

AB: Então não tem como precisar o começo de tudo isso?

TS: Não, não. Podemos até ver o início de alguns deles dentro da História, mas outros vão sendo agregados ao longo do tempo. Quer dizer, como o Oriente Médio é uma região de extrema importância estratégica e é também um cruzamento de várias civilizações, não tem como não ter conflitos. Ao meu ver, o que contribui para que esses conflitos ocorram com mais frequência é a instabilidade política. Quer dizer, onde não há democracias consolidadas, não há instituições consolidadas; onde não há um estado forte – não forte no sentido de ditadura, mas no sentido de democracia, um estado de direito -,  as populações ficam a mercê de demagogias, ideologias variadas. Então, tudo contribui para as instabilidades.

AB: E como é a cobertura em áreas de conflito? Como é tua preparação, tanto no sentido cultural como técnico?

TS: Cultural, obviamente que a todo o momento eu tenho que estar lendo. Eu tenho conhecimento adquirido, um acúmulo de conhecimento, mas as coisas lá são sempre dinâmicas. As leituras são constantes, revistas, livros. Conversas com especialistas – porque eu não converso com especialistas apenas para entrevistá-los para as minhas matérias, eu tomo um café com eles, alguns são amigos. Então a gente conversa sobre várias questões da região. Quanto à preparação técnica, eu recebo um treinamento específico da BBC para isso. Treinamento de segurança, de como lidar com esse tipo de situações. A minha própria experiência adquirida me permite ter um preparo técnico também. Antes de cada cobertura eu faço um plano de contingência, um plano de preparação, de prevenção para não ocorrer nada errado. A gente tenta prevenir coisas ruins, a maioria dos jornalistas trabalha assim.

AB: E o preparo psicológico?

TS: Não há nada assim que ocorra de forma direta psicológica. Ontem mesmo eu palestrei na Feevale e essa pergunta foi feita, se há traumas psicológicos, por exemplo. O que ocorre é que todo dia acontece um trauma psicológico. É uma pressão, especialmente para os correspondentes estrangeiros, porque os países em que estamos baseados não são os países da gente. Quer dizer, eu sou um brasileiro e estou lá, eu estou cobrindo, eu tenho origem lá, mas eu tive que me adaptar lá. Eu não tenho nada a ver com aquela região e tive que passar por um processo de adaptação. Então há sempre uma pressão psicológica. É uma região extremamente politizada, tudo lá é levado para o lado político, até partidas de futebol acabam se dividindo, as torcidas levam para o lado político. Há uma pressão sectária, há uma pressão religiosa de todos os lados, tanto cristãos quanto muçulmanos. Há uma pressão em todos os sentidos. Então, obviamente que o trabalho do correspondente sofre pressão em regiões conturbadas. Mas o como tu lidas com isso é que vai fazer a diferença. Eu tenho colegas que vão para o terapeuta, é a maneira deles lidarem com isso. Eu jogo videogame. Cada um lida de uma maneira.

AB: Como tu te tornastes correspondente? Era um desejo teu?

TS: Sim, sempre foi. Sempre foi o meu desejo, eu entrei no jornalismo pra isso. Eu não entrei no jornalismo pensando “ah, de repente eu vou fazer esportes, ou de repente eu vou fazer diagramação”. Na verdade, eu queria ser fotógrafo, estudei fotografia e trabalhei como fotógrafo, bem no início. Mas eu também gostava muito de escrever e o meu desejo era ser correspondente. Então toda a minha trajetória, dentro da faculdade, o modo como articulei minha carreira, era no sentido de virar correspondente. Todo o acúmulo de conhecimento visava este objetivo.

AB: E o trabalho na BBC? Vocês têm liberdade para produzir as pautas ou são mais guiados?

TS: É via dupla. Os correspondentes, em geral, sugerem, como também podem ser pautados pelos editores. Obviamente que existem aquelas pautas que são as rotineiras. Por exemplo, há um grande evento e você vai lá, faz aquele “feijão com arroz”, né? O clássico, “belê”. Quando há material mais especial, mais específico, obviamente que o correspondente, que está lá na região, é quem vai sugerir mais do que o editor que está em Londres, por exemplo. Ou mesmo o produtor (de televisão), junto com o correspondente, pode indicar pautas. No meu caso, eu trabalho sozinho. Como repórter eu faço para a BBC Brasil, às vezes BBC Mundo, que é espanhol, e bem raramente BBC News, em inglês. Mas eu trabalho sozinho. Então eu não passo pelo escritório da BBC em Beirute, eu passo direto para Londres. Agora, como produtor, aí eu faço a BBC em inglês, BBC em árabe. Neste caso, eu divido as sugestões, eu passo para os correspondentes “olha, eu tenho essa pauta aqui, eu acho super interessante”, e eles me dão o sinal verde para eu produzir essa pauta e transformar ela em realidade – tanto da parte de logística, como a dos entrevistados e de tudo que tem de ser feito para chegar à realização desta pauta, inclusive a parte de segurança. Então há uma liberdade, sim, mas há também um comando. Há os editores e as aprovações ou não passam também por eles.

AB: Como é o tempo de produção de uma matéria?

TS: Vai depender muito. Depende de qual mídia também. Se é online, se é rádio, se é TV. E há vários canais dentro do próprio online.

AB: Tu costumas produzir para todos?

TS: Não, não. É impossível, é muita coisa. Tem, por exemplo, a BBC On demand, que eles basicamente gostam de vídeos curtos, minidocs, ou áudio com fotos. Isso é uma produção a parte. Eu poderia fazer, mas eu não faço, é um outro departamento.  Eu vou pegar, por exemplo, o online. Dependendo da pauta, se é uma matéria offtier, em inglês, que é a reportagem, que é a parte mais especial, a pressão é menor. Tu tem dois ou três dias pra fazer, em geral. Obviamente, eu não estou falando do hardnews, a notícia diária. Se é o rádio, tu também tem esse processo, de três dias, mais ou menos. Depende muito da pauta, do repórter, das condições. A TV – e, de novo, eu não falo da reportagem diária, eu estou falando da parte especial – também tem alguns dias de deadline para produzir esse conteúdo. Tudo vai depender da pauta, quanto mais complexa, mais tempo vai demandar.

AB: Acreditas que a tua formação acadêmica conseguiu suprir as necessidades que tu encontrastes no mercado de trabalho?

TS: Bom, uma coisa é certa: a necessidade técnica atendeu. Quando eu fui fazer meu primeiro treinamento em Londres, foi na parte de rádio, porque na BBC o rádio é o central, ela começou como rádio. Lá pelas tantas eu percebi que tudo aquilo que eles estavam passando eu já tive na faculdade. A parte técnica, como fazer o rádio, como fazer a TV. Ou seja, me dei conta de que aquele treinamento existe porque lá não tem a obrigatoriedade do diploma, como tínhamos no Brasil. Era voltado para aqueles que tinham uma graduação e depois fizeram mestrado em comunicação e viraram jornalistas, então eles eram treinados tecnicamente. Aqui, tecnicamente, as universidades já nos dão toda habilidade, tu sai da faculdade já sabendo como fazer um texto de rádio, como editar, cortar ali no software. Mesma coisa na TV, mesma coisa na parte online.  Mas acho que faltam, ainda, duas coisas: primeiro, a formação empreendedora, de construir novas tecnologias; depois, o jornalista saber ser freelancer, isso é uma coisa que falta muito no Brasil. De saber lidar, de conduzir a própria carreira e traçar o caminho. Acho que isso é uma coisa que está começando aqui nas universidades e poderia haver mais investimento nisso. Mas, no geral, o pessoal que sai das escolas de jornalismo aqui no Brasil, pelo menos das principais, tecnicamente falando, tem totais condições de suprir as necessidades do mercado.

AB: Qual a importância de Agências Experimentais na formação de estudantes de Comunicação?

TS: Ah, muito importante. Eu mesmo sou fruto de uma Agência Experimental. O primeiro contato com uma redação, toda rotina de uma redação, vem da Agência Experimental. Então, a reunião de pauta, o relacionamento com o editor, a rotina de sair pra rua pra fazer a pauta, montar, enfim. Na época fomos nós que criamos o site da Agência.  É muito importante, especialmente, para os alunos, vamos dizer assim, mais novos, com pouca experiência. Eu, quando fiz Jornalismo, já estava na minha segunda faculdade, então eu  tinha mais experiência de vida, minha idade era um pouco maior que a dos outros. Então, pra mim, o impacto já não era tão grande, mas para aqueles que eram mais novos, que recém estavam começando a vida universitária e entraram na Agência Experimental, era um trabalho. Era a rotina de entrar no mundo adulto, vamos dizer assim.

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Fotos: Felipe Kroth.

Confira a matéria sobre a palestra de Tariq Saleh na 19ª Seacom clicando aqui.

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